Apesar do raciocínio lógico que levava à morte planejada, não se considerava um suicida nato. O suicida verdadeiro era aquele covarde que não tinha coragem de enfrentar os problemas, aquele que sem pensar em outras saídas se matava e pronto. Ele não, ele tinha uma linha de raciocínio que o levava à morte, não era um suicida, apenas faria o que deveria ser feito. Não tinha problema algum, apenas percebeu que havia chegado a hora de morrer. Faria sem remorso, sem ressentimentos, sem culpa.
A vontade de sumir já lhe vinha atormentando a cabeça há muito tempo. Começou com a vontade de fazer uma viagem para um lugar desconhecido, onde ninguém o notaria, onde ninguém o cobraria. Ninguém iria olhá-lo com desdém, com pena ou com qualquer outro sentimento. Estava cansado de ter os olhos das pessoas voltados para ele.
Infelizmente, não passava de um sonho inocente. Primeiro não tinha dinheiro para isso, depois, um dia teria que voltar, se voltasse teria que dar explicações e, mesmo se não voltasse, alguém o acharia graças às tecnologias de espionagem que se tem hoje em dia por aí. Ainda assim, se conseguisse um plano infalível de sumir sem deixar rastros, o efeito seria o de um suicídio seguido de um renascimento em um lugar desconhecido. Neste ponto, o plano fracassava, estava muito velho e cansado para nascer de novo. Foi mais ou menos assim, seguindo essa linha de raciocínio, aqui reduzida ao máximo possível, que ele deixou de lado a idéia de nascer de novo e assumiu como única saída possível o suicídio simples.
Porém, embora o ato fosse nada mais do que prático, não conseguiu impedir os pensamentos de irem buscar na memória uma por uma, as pessoas que se chocariam com o evento. Irritou-se com o fato de se preocupar com os outros, era um ato simples, sairia da vida e pronto, uma escolha, ninguém tinha nada a ver com isso. Mas era impossível não pensar em quem estaria em seu velório chorando e sentindo a sua falta. Após checar um a um se chorariam ou não, a pergunta era se sentiriam culpa ou não pelo trágico fim que ele teria. A resposta era surpreendente, o egocentrismo tomava conta das pessoas até mesmo nesses momentos mais mórbidos. Quase todos queriam ter participação na causa mortis, talvez porque dessa forma se sacia o instinto assassino que todo ser humano traz consigo e é ensinado a reprimir para viver em sociedade.
Até a sua primeira namorada que não o via há anos seria assaltada do mesmo sentimento quando recebesse a notícia pelo facebook, Orkut, twitter ou qualquer outro site de relacionamento que contribuíram para retirar as Marias das janelas e as trouxeram para dentro de casa, voltadas para o outro lado da sala, onde as janelas são inúmeras, mas os raios do sol não entram. Antigamente as notícias teriam que respeitar uma ordem física, para chegar ao destinatário final; elas teriam que aguardar o tempo necessário de viagem de janela a janela, de boca a boca. Hoje, basta que a boca de uma Maria queira soltar a notícia e que outras Marias tenham ouvidos e olhos atentos para que ela se espalhe num instante. A primeira namorada seria uma dessas Marias atentas que, como já foi citado, tomaria as dores do suicídio e se sentiria uma das culpadas pelo incidente. Essa pelo menos tinha o discernimento de não se sentir totalmente culpada, ela queria apenas alguma porcentagem da culpa, mas não toda. Apenas aquela parcela que lhe faria sentir importante, que lhe daria a sensação de ter sido amada até o ultimo instante, de ter influenciado a vida de um homem, mas nunca a parcela definitiva, aquela que com as mãos laçaria o nó na corda e que com os pés chutaria a banqueta. Ela queria apenas a culpa de chorar um choro triste por uma ou duas noites, mas nunca a de carregar para o túmulo uma outra vida, ou uma outra morte. Isso nunca.
Da mesma forma se sentiriam os vizinhos que nunca abaixaram o som nas terças à noite; os porteiros que nos dias chuvosos demoravam a abrir o portão de pirraça; o patrão que havia dado aquele esporro na semana anterior e até mesmo o cachorro da vizinha da frente que certa vez tinha urinado na porta dele; todos dividiriam uma porcentagem pequena da culpa da morte.
É óbvio que nada disso o levaria ao ato de suicídio, que só seria consumado por vontade e desígnios próprios, nenhum outro ser tinha interferência nisso. Nem mesmo os mais próximos como a mãe e o filho. No entanto, foram exatamente estes dois que fizeram o plano ir por água abaixo. Não queria que nenhum dos dois levasse para sempre aquela culpa ingrata pelo ato que cometeria, apesar de ser quase impossível pedir-lhes isso. Não se faz um pedido desses nem para uma mãe nem para um filho, muito menos com uma carta de suicídio. Aliás, um suicida nato talvez nunca pensasse numa carta de despedidas, não se importaria com os outros, se mataria e pronto, sem se incomodar com a opinião de terceiros. Ele, no caso, pensava na mãe e no filho e a carta não seria suficiente.
As mãos trêmulas da mãe pegariam o papel e levariam para próximo dos olhos, mas esses nem se esforçariam para ler, estenderia o bilhete para o policial que talvez teria pela frente uma das missões mais difíceis da sua carreira: ler para uma mãe desconsolada a carta de seu filho suicida. As palavras encontrariam os ouvidos de sua mãe e ela se lembraria da última conversa que teria tido com seu filho, ele parecia tão bem. Que tipo de mãe era ela que não percebera que o próprio filho tinha a companhia da morte em seus pensamentos? Que tipo de mãe não conhecia o próprio filho? “Mãe, não se culpe por nada, por favor. Fiz isso por mim, fiz porque era para ser feito.” Como não se culpar pela morte do filho? Onde havia errado? Falta de amor? Amor de mais? Onde havia errado? Porque ele não lhe dera nenhuma dica para que ela pudesse corrigir? Ou será que ele havia dado e ela não percebera? Enfim, sua mãe não merecia essas perguntas na cabeça, que com o tempo iriam se modificar, se agravar, e consumir cada minuto da sua vida até o momento em que se reencontrariam e ele poderia pedir desculpas pessoalmente. Não, ela não merecia isso. E quanto ao filho, esse não compartilharia agora as dores da avó, por causa da idade, mas, inevitavelmente, elas fariam parte do seu crescimento. Sentiria a falta do pai da mesma forma que ele também sentiu na infância. A diferença, é que nas poucas vezes que sonhava com seu pai ele não vinha lhe visitar com uma corda no pescoço, nem com os punhos pingando sangue. O filho não merecia viver com esses fantasmas.
Dessa forma, a idéia do suicídio enfraqueceu, a da morte não. Pensou talvez em se suicidar com um acidente planejado. Não precisaria esperar a morte vir lhe buscar e não seria tachado como um suicida, já que não o era. Morreria de forma que todos julgariam ter sido vítima de um acidente. Pensou em várias formas de se acidentar, mas não conseguiu criar nenhum plano que fosse perfeito a ponto de salvar a Mãe e o filho dos tormentos futuros. Pensou num acidente de carro, miraria em uma árvore e aceleraria até o choque, mas não tinha carro. Pensou em se embriagar e fingir uma queda da sacada do apartamento, mas não bebia. Pensou em cair no trilho do metrô, mas havia câmeras e seria fácil perceber o suicídio. Nada disso funcionaria, por mais que pensasse não conseguia uma saída viável.
Começou então a esperar a morte e a sonhar com ela todas as noites. Quando criança tinha medo dessa imagem fria, pálida, com uma capa preta e foice na mão; hoje, ele sentia um amor platônico por ela. Ele estava completamente seduzido e apaixonado por ela, mas ela não sentia o mesmo por ele, com desdém, o esquecera e não mandava notícias. Como toda dama da noite, ele percebeu que teria que seduzi-la e não apenas esperar. Ela precisaria de um motivo para ir buscá-lo, ela teria que querer e desejá-lo.
Foi assim que iniciou o jogo da sedução com a morte, pesquisou o que a atraia e começou a mudar seu comportamento para agradá-la. Descobriu que ela tinha uma queda por cirrose ou problema no fígado, passou a beber todos os dias. Ouviu dizer que câncer no pulmão era o que a deixava sem fôlego, passou a fumar cada vez mais. Concluiu que a flecha do cupido teria que acertar o coração, passou a comer indiscriminadamente e diminuiu as atividades físicas. Certa vez leu em uma dessas revistas semanais que ovo fazia mal, comeu ovo a semana inteira. Na semana seguinte, um outro estudo dizia que o ovo poderia fazer bem, parou de comer ovo. Toda noite antes de ir dormir tomava uma vitamina de manga. Não sabia o que poderia causar, mas lembrava de sua avó dizendo que não era bom, e como nenhum estudo que ele conhecesse tinha provado o contrário, era melhor arriscar. Certa vez em uma fila de supermercado ouviu a senhora da frente contar para a outra que o gato dela havia morrido por ter comido ração de peixe, “Acredita? Meu gato era alérgico a peixe”. Na mesma hora ele deixou a fila, foi direto à peixaria e comprou um pouco de cada peixe. Se até gato podia ter alergia a peixe, porque ele não? Por via das dúvidas comprou alguns frutos do mar também.
Passou a viver sem medo, sem medo de morrer. Não evitava lugares, convites, pessoas, não evitava nada, procurava intensamente a morte em tudo o que via pela frente. Ironicamente, ela parecia esnobá-lo cada vez mais e passou a ser conhecido como um homem cheio de vida, seu comportamento atraia cada vez mais amigos e convites. A agenda foi se preenchendo de festas e compromissos sociais. Em uma dessas ocasiões, em uma festa no apartamento de um desses novos amigos, estava debruçado sobre o parapeito da sacada olhando fixamente para o chão a dez andares de distância quando uma garota se aproximou e lhe perguntou se estava procurando algo. A resposta veio instantaneamente “Sempre!” “Quem sabe eu não posso ajudá-lo?” Virou-se para responder que infelizmente ninguém podia, mas ficou sem ar ao vê-la e a frase não saiu.
A garota era de uma beleza clássica incrível. Vinha num vestido preto simples, cabelos negros, longos e soltos sobre o ombro, e a pele clara refletia com intensidade a luz da lua atrás dele. Ela percebeu que a resposta não viria tão cedo e aproveitou para se apresentar “Maria”, ele também se apresentou e a partir de então começaram a se ver quase que diariamente.
Maria, para ele, era apenas Mia. O apelido carinhoso veio devido ao primeiro encontro. Dizia que ela havia lhe roubado o ar naquela noite e nada mais justo que pegá-lo de volta do nome dela. A relação se fortaleceu e após alguns meses passaram a viver juntos e a dividir tudo.
Uma noite, após dividirem prazeres e carinhos, Mia pediu para fazer uma pergunta, ele, apesar de sonolento e não querer começar uma conversa naquele momento, disse que claro, ela poderia perguntar qualquer coisa que quisesse. “Aquele dia em que nos conhecemos, você disse que estava sempre à procura de algo. O que era?”. Ele começou a responder instintivamente, sem pensar, porém antes de terminar a frase sentiu vergonha e percebeu que não era a melhor idéia dividir esses pensamentos com ela. A resposta, então, saiu assim, pela metade “A mor...”. Mia não percebeu a falta das duas letras “E já achou?”. Ele a olhou nos olhos e percebeu que “Sim”, ela era exatamente o que ele procurava e, mesmo sem saber, havia encontrado. Deu um beijo suave nos lábios de Mia, encostou a cabeça no peito dela e adormeceu tranqüilo enquanto ela acariciava seus cabelos. No dia seguinte, não acordou.
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3 comentários:
Genial Rafa!!
Lindo! Só pra mostrar que às vezes não sabemos exatamente o que estamos procurando.
que doidice: parece que 'alguém' entrou na minha cabeça e retratou parte daquilo que escondo em lugares os quais nem eu mesma visito por medo do que vou encontrar...
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