sábado, 14 de novembro de 2009

Gabriela

Um dia desses Gabriela entrou afobada na cozinha, com o ovo virado sabe? Acho que ela nem me viu no canto, sentada na cadeira perto da geladeira. Foi direto pro filtro, encheu um copo de água que tomou num gole só. Eu sempre digo que isso faz mal, que tem que respirar entre um gole e outro, mas parece que nunca me escuta. A mãe dela estava de costas no fogão, mas percebeu na hora que a filha não estava bem. Quem é mãe sabe essas coisas, não sei explicar direito, mas sente. Você sabe como é, né?

Quando a Gabriela estava saindo da cozinha a mãe dela pediu para ela buscar um pacote de farinha na dispensa. Na verdade, a Isadora é bem esperta, ela nem precisaria pedir para a Gabriela, até porque eu estava ali e podia muito bem fazer isso, mas ela pediu só para a filha ficar mais um tempo na cozinha e tentar puxar conversa, saber o que estava aperreando a minha menina.

As duas começaram a conversar e eu no começo fingi que não estava ali. Estava morrendo de vontade de dar minha opinião, de dar meus conselhos. Mas aprendi com o tempo que conversa de mãe e filha não se deve meter a colher. Comecei a escolher feijões, mais para disfarçar do que por necessidade. Hoje em dia os feijões que a gente compra no supermercado quase nem tem sujeira. Antigamente que era um sofrimento, a gente jogava mais pro lixo do que pra panela.

Mas quando a Gabriela chegou a mãe começou a rodear a menina com aquela conversa fiada.“Gabi, minha filha...” Não sei porque chama de Gabi, colocou o nome na menina de Gabriela e agora fica chamando de Gabi. Eu nunca achei isso certo. Mas vá lá né? mãe é mãe, vou falar o que? Eu sei como é, se eu desse um palpite ia sobrar pra mim e o que eu menos quero agora é problema pro meu lado.“...você viu no jornal hoje falando do filme daquele cara que você gosta?” “Não, qual?” Eu bem acho que não tinha filme nem cara nenhum, que a Isadora inventou isso só para puxar conversa com a filha. A gente que é mãe sabe dessas coisas, as vezes você começa com uma história boba, sem pé nem cabeça, e vai levando até pegar o fio da meada. “Aquele que fez aquele filme que ele tinha um bigodinho de cafajeste, mas na verdade era o mocinho do filme. Lembra? Que a gente assistiu aqui em casa, eu você e seu pai?” “Não mãe, não lembro, não sei do que você ta falando.” “que que foi minha filha?, que vozinha é essa?” Não falei, a Isadora não é boba não. Isso eu tenho que admitir, essa aí sabe bem das coisas, se faz de boba, mas de repente dá o bote. “Nada mãe, só um pouco chateada. Só isso, mas passa.”

Ah, a Gabriela sempre foi uma menina alegre, feliz, daquelas que chegam cantando, te abraça, te dá um beijo e até começa a dançar com você, justo na hora que você ta atarefada. Às vezes eu acho que ela faz isso para aperrear mesmo, mas é um doce de menina. Quando ela ta assim tristonha da vontade de pegar no colo. Agora não dá mais que já ta uma moça, mas quando ela era menor, sentava com ela no sofá da sala e ficava horas lá com ela.

Aquele dia ela estava tristonha, qualquer um percebia, parecia que tinha um nó na garganta sabe? Com a conversa da mãe foi se acalmando e ficou ali sentadinha na outra ponta da mesa, tomando o copo de água que tinha enchido de novo, mas agora com golinhos pequenos e olhando pra toalha da mesa como que contando as florzinhas da estampa.

“Mãe, quando a gente fica em duvida de alguma coisa. Como que a gente sabe o que que é melhor?” “É aquele moço de novo Gabi?” “Não mãe. To falando sério. E aquele moço é meu namorado, não fala assim dele não.” “que que foi então, minha filha?”

Eu bem vi que essa conversa ia longe, tinha alguma coisa aperreando a minha menina e eu não podia fazer nada, não ali pelo menos, não naquela hora. Eu estava ali no meu canto escolhendo feijões. E a conversa foi longe mesmo, a Gabriela falava para mãe das vontades que ela tinha e dos medos, do medo de não estar fazendo a coisa certa. Ahh essas meninas de hoje em dia tem tanta coisa na cabeça que acabam se preocupando de mais, até com coisas bobas. A Isadora até que tava se saindo bem, tirando cada um dos medozinhos que atormentava a minha menina, mas mesmo assim ainda dava para ver uma rugazinha na testa dela. Ai ai, se eu pudesse fazer algo, mas nenhuma das duas pediu minha opinião, nem olhavam pra mim. Eu ia fazer o que?

Mas daí a Isadora teve que ir lá dentro atender o telefone e a Gabriela ficou ali quietinha no canto dela. Eu sei bem que não posso me intrometer na conversa das duas, já ouvi poucas e boas por causa disso, então chamei a Gabriela pra sentar do meu lado e ajudar a escolher o feijão do almoço. Ela sentou do meu lado, cabisbaixa pegou uma bacia e começou a puxar os feijões da mesa para a bacia.

“Sabe Gabriela, você entende de muita coisa, você é uma menina muito inteligente, mas precisa aprender escolher feijões. Tem que prestar mais atenção minha filha. Deixa eu te mostrar como faz. Ó, primeiro você senta bem perto da mesa com a bacia no colo. Depois esparrama um punhado de feijão na mesa, assim ó. Bom, agora vem a parte mais interessante, você tem que puxar só os bons para a ponta da mesa e deixar eles caírem na bacia.” “Ai vó, só você mesmo! O que que tem de interessante nisso?” “É, acho que nada mesmo...... Mas quer ver, pensa assim ó: esse monte de feijão em cima da mesa é o futuro.” “Vó! Voce lê o futuro no feijão?? Essa eu nunca ouvi.” “Hahaha, não Gabriela, presta atenção! Esses feijões na mesa são o futuro e essa bacia no seu colo é o seu passado. O futuro está cheio de possibilidades: feijões bonitos, grandes, graúdos, vermelhos, feijões mirrados, feios machucados, pedras, sujeiras, pragas.... aí, de tudo isso, você escolhe só o que você vai querer ter na bacia do seu passado. Dá uma olhada na minha bacia, olha só quantos feijões bonitos eu trouxe, agora é sua vez de fazer isso. Você que escolhe o que ter amanhã na bacia do ontem.” “Mas vó, e o presente?” “Ah, o presente, minha menina, é o tempo que separa a mesa da bacia. É esse instantezinho de queda livre, de frio na barriga, de futuro virando passado. Entendeu?” “Entendi vó, entendi sim” Nessa hora a Isadora voltou pra cozinha perguntando o que era que ela tinha entendido. “A vó só estava me ensinando escolher feijões mãe. Só isso.”

A Isadora deu uma risada achando que eu tinha ficado louca e a Gabriela se levantou, me deu um beijo na testa e foi escolher os feijões dela.

5 comentários:

Unknown disse...

Olá Rafael,
Adorei seu texto!! E não só porque vc escolheu meu nome pra título ... rs. Mas principalmente pela lição, pela mensagem. Espero que possamos todos segui-la com sabedoria. Nunca pare de escrever. É um dom muito bonito que vc possui. Parabéns!
Gabriela (amiga da Débora ... rs!)

Anônimo disse...

Nossa amiga Gabriela tá se achando artista agora!!! Personagem principal..rs
Parabéns Rafael! Muito lindo!
A Débora faz muita divulgação da sua arte!
Você precisa escrever um com o nome dela!
bjos
Sabrina :)

Unknown disse...

Perfeito, Rafa!

Anônimo disse...

Você consegue se superar a cada texto, fico encantanda com essa capacidade de traduzir em palavras algo que só se aprende vivendo.
Parabéns

Anônimo disse...

chorei
com Amore, Mari