domingo, 1 de fevereiro de 2009

Um poeta e uma garota

Conheceu o poeta na escola, foi a professora de português que o apresentou. Mas foi em casa, com os discos velhos que o pai guardava debaixo da vitrola, que ficaram íntimos. Era ali na sala, por debaixo da poeira e entre ruídos, que o poeta conversava com ele.

Não entendia tudo o que falava, bem pouco na verdade, mas gostava de ouvir mesmo assim. Na escola a professora mostrou como entendê-lo melhor. Pegou um texto e explicou palavra por palavra, depois releu o texto todo montando o sentido das frases e interpretando tudo. O texto ficou muito mais simples depois disso e o poeta mais próximo.

O poeta era legal, gostava quando falava de garotas. Tinha uma de Ipanema e uma outra flor morena que eram especiais. Elas eram maravilhosas, cheias de encantos e beleza, exatamente como a que sentava ao seu lado na sala de aula. Aliás, o que será que ele pensaria se a conhecesse?

Ela era linda! Ele não conseguia parar de olhar. Tinha uma beleza leve e tranqüila que poucos garotos percebiam. Era inteligente e simpática, tinha uma das melhores notas da classe e sempre o ajudava nos exercícios complicados com um brilho nos olhos. À noite, em casa, sentia saudades de vê-la passar com o sorriso leve que os lábios sempre carregavam. Sorriso que podia ter qualquer propósito, mas para ele, era para ele. Sentia saudades de escutar a voz macia com as frases que nem sempre eram direcionadas aos seus ouvidos, mas que por si só já bastavam. Saudades de vê-la chegando pra aula e de saber que por mais um dia inteiro, estaria ao seu lado. Linda, simpática, inteligente, perfeita!! Ela podia ser quem ela quisesse, ela era perfeita.

O que será que o poeta pensaria dela? Uma noite, resolveu parar o poeta e começou a falar. Queria compartilhar aquela beleza com ele, mas queria também ter idéia do que fazer, de como agir perto dela. Contou tudo o que sentia e pediu conselhos. Quando voltou a falar, o poeta disse que só não tem perdão quem não rasga o coração. Ele não entendeu muito bem, mas fez igual a professora ensinou, tentou entender palavra por palavra e depois a idéia toda. No final, percebeu que o poeta estava lhe falando para contar tudo a garota, abrir o coração e expor os sentimentos.

No dia seguinte, falaria com ela no intervalo. Depois da aula de inglês e antes da aula de matemática. Tudo decidido, tinha até decorado uma declaração. Contaria como o coração batia mais forte quando a via, como era feliz quando por alguma razão seus olhares se cruzavam, como gostava de ouvi-la falar, como gostava do seu cabelo, da boca, dos olhos, do nariz, como ela era perfeita...

Bateu o sinal e a correria começou com centenas de crianças descendo para o pátio. Ele não acompanhou os amigos, deu uma desculpa, esperou um pouco e desceu as escadas sozinho, respirando fundo, tomando coragem. Ele sabia exatamente onde ela passava os recreios, todos os dias ela lanchava com as amigas em um banco encostado no muro do fundo do pátio. Não sabia como ela reagiria à declaração, então tinha decidido que a tiraria de perto das amigas para não deixá-la constrangida. Inventaria que precisava tirar uma dúvida sobre a prova de ciências, com certeza ela ajudaria e com certeza as amigas não iriam querer acompanhar aquela conversa chata.

Caminhou em direção ao fundo do pátio, ela estava lá, linda como nunca. Parou a uns 20 metros para respirar, tomar coragem e seguir em frente. Mas o ar que deveria encher os pulmões de confiança trouxe entretanto as lembranças da garota da terceira série, da garota da quarta série e da garota da quinta série. Ele já tinha muitas decepções amorosas para os seus 12 anos. Para que arriscar de novo? Além do mais, na próxima aula teriam exercícios em duplas e provavelmente dividiriam o mesmo livro. Deveria arriscar justo agora?

Ele a amava todos os dias e talvez ela não precisasse saber disso. Talvez ela não precisasse saber que tinha alguém ali ao lado dela a amando e que para ele, ela era perfeita. Ela não tinha defeitos e não precisava saber disso. Ela só precisava ser ela. Ela só precisava não estragar tudo. E pra que arriscar? Para que deixá-la sabendo disso, se ela poderia estragar tudo e sumir? E o medo? E o medo do fracasso? E o medo de ter se apaixonado novamente pela pessoa errada?

Decidiu não contar, deu a ela uma chance de não estragar tudo, de continuar perfeita pra sempre. Sempre lembraria da garota da sua infância. Esse seria o presente que daria ao seu amor, a eterna perfeição. Nunca lhe disse nada, desobedeceu ao poeta e a conservou.

Hoje, 30 anos depois e momentos antes de assinar os documentos da segunda separação, ele lembrou da garota e do poeta. Onde estaria ela agora? Como estaria ela? Como teria sido se não tivesse respirado fundo, se tivesse obedecido ao poeta? Será que ainda a amaria? Será que ainda seria perfeita? Será que estaria com uma caneta na mão agora?

Dois tapas nas costas espantaram os pensamentos “Que foi, se arrependeu?” e ao desenhar seu nome no papel respondeu em tom melancólico “Não, só imaginando como tudo poderia ter sido diferente.”

5 comentários:

Anônimo disse...

good as always

semudei disse...

Isso é muito bom. Quase perfeito. Mas, lembre-se: a perfeição é a virtude dos fracos. ehehehhe
abraco!

Anônimo disse...

se nossas palavras revelam um pouco de nós...meu Deus....

Anônimo disse...

a delicadeza de suas palavaras me encanta...volte logo!

Nathy Royo disse...

Adorei!
Nem acredito que fiquei tanto tempo sem entrar aqui para ler seus textos.