terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Doce de Compota

“Um sorvete que nunca acaba, eterno. Mas de repente lhe cortam a língua fora.” era assim que via a vida, mas quando seus netos a perguntavam respondia de uma forma menos traumatizante: “Um pote de doce gigante, daqueles que nunca acabam e você tem uma colher para pegar o quanto quiser na hora que quiser. O problema é que mais cedo ou mais tarde você vai deixar a colher cair no chão e aí não pode mais pegar.”

Os netos não entendiam direito, mas tudo bem. Um dia eles cresceriam e lembrariam da definição da avó maluca. Eles ainda teriam muito pela frente e um dia entenderiam. Ela já tinha vivido o suficiente para ver diversas relações com o doce e sabia muito bem como funcionava.

Já tinha visto gente que não gostava do doce, gente que se lambuzava, gente que comia aos poucos saboreando cada colherada, gente que mal engolia e já estava com a colher no pote de novo, gente que dançava enquanto comia, gente que comia quieta no seu canto, gente que ficava imaginando do que que seria aquele doce esquisito, gente que sem pensar tentava a todo custo descobrir o que tinha no fundo do pote, gente que experimentava comer o doce pelo cabo da colher, gente que levantava o dedinho para comer, gente que tinha vergonha de comer e quando ninguém estava vendo dava uma boa colherada, gente que não sabia se gostava ou não mas mesmo assim continuava comendo, gente que tentava comer com as mãos, gente que se cansava do gosto e jogava a colher pelo alto, gente que brincava com a colher entre uma colherada e outra (às vezes ela escapava), gente que segurava a colher com as duas mãos para não deixar cair, gente que já sem forças não aguentava o peso dela que escorregava para o chão, gente que não lembrava o que fazia com a colher na mão, gente que tirava a colher dos outros, gente que comia chorando, gente que comia rindo e gente que comia sem perceber.

Ela mesma já tivera varias ralações com a colher. No começo quando lhe deram a colher e colocaram o pote na sua frente não sabia o que fazer. Aos poucos viu as outras pessoas enfiando a colher lá dentro e depois colocando na boca. Fez o mesmo, devagar, com medo. A primeira colherada veio com um gosto estranho, depois tentou de novo e de novo e de novo, até se acostumar. Aprendeu a gostar, aos poucos foi pegando confiança e passou a enfiar a colher no pote sem pensar. O tempo passava e começava a comer mais e mais rápido, queria todo o doce, queria aproveitar tudo o que podia daquele pote. Começou a fazer experimentos, parou de comer a parte de cima e tentava experimentar o que tinha mais pro fundo, experimentou misturar, comeu as bordas, o meio, os lados e o fundo. Chegou até a adicionar açúcar ao doce para ver como ficava. Depois a euforia foi passando, foi se acalmando e passou a comer moderadamente. Conheceu seu marido, dividiram colheres, mas não por muito tempo, mais tarde rapazes encapuzados roubariam a colher dele, e ela passaria a comer sozinha de novo.

Quando vieram os filhos queria dar-lhes de comer com a própria colher, mas não podia. Eles tinham que aprender a usar a própria ferramenta. A cada colherada olhava para cada um deles para ver se eles estavam comendo, se estavam segurando direito e se estavam gostando. A preocupação com a colher era cada vez maior, cuidava da sua e da dos filhos. Tinha medo de derrubar ou que eles derrubassem por qualquer descuido. Estava sempre atenta e dava bronca quando algum deles brincava com a colher ou a segurava de forma despretensiosa, como fazem os jovem por aí.

Com os netos foi um pouco diferente, ainda se preocupava, mas queria mais é que eles aproveitassem, ensinava a encher a colher para lambuzar o rosto e sujar a ponta do nariz. Quando as crianças estavam por perto comia o doce dançando em volta dele, rindo e contando piadas, mas a quando estava sozinha, comia devagar sem muito entusiasmo.

A preocupação com a própria colher foi diminuindo, não tinha medo que ela lhe escapasse, tinha medo de não saber usá-la direito. Entristecia ao ver algumas de suas amigas sofrendo para acertar a boca do pote, outras já sem forças para levantar a colher e algumas que já tinham até se esquecido para o que que ela servia. O doce agora tinha um gosto diferente, um tanto quanto saudosista e no geral ia perdendo o sabor e a cor gradativamente. Na verdade, ele sempre foi o mesmo eram os seus olhos e língua que já não se empolgavam mais.

Um dia olhou para os lados e viu os filhos, genros, noras e netos compartilhando o pote, cada um do seu jeito, cada um com a sua mania. Um já com o botão da calça aberto depois de tanto doce, enquanto o outro comia aos poucos com medo de indigestão. O mais novo não sabia nem segurar a colher direito mas olhava atento para aprender como o irmão fazia. Um dos netos estava mais preocupado em observar como os outros comiam que quase nem comia, a irmã dele comia com graça, preocupada em não se sujar, enquanto a prima se lambuzava toda. Um dos filhos quase deixou a colher cair certa vez e agora segurava com as duas mãos enquanto a mulher se preocupava com a dos filhos que estavam na época de querer experimentar comer com a colher da vizinha.

Deu risada, lembrou de como comeu e como comia, e com uma boa e cheia colherada decidiu que estava satisfeita. Abriu a mão e limpou a boca com o guardanapo enquanto escutava o barulho do metal encontrando o chão.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Um poeta e uma garota

Conheceu o poeta na escola, foi a professora de português que o apresentou. Mas foi em casa, com os discos velhos que o pai guardava debaixo da vitrola, que ficaram íntimos. Era ali na sala, por debaixo da poeira e entre ruídos, que o poeta conversava com ele.

Não entendia tudo o que falava, bem pouco na verdade, mas gostava de ouvir mesmo assim. Na escola a professora mostrou como entendê-lo melhor. Pegou um texto e explicou palavra por palavra, depois releu o texto todo montando o sentido das frases e interpretando tudo. O texto ficou muito mais simples depois disso e o poeta mais próximo.

O poeta era legal, gostava quando falava de garotas. Tinha uma de Ipanema e uma outra flor morena que eram especiais. Elas eram maravilhosas, cheias de encantos e beleza, exatamente como a que sentava ao seu lado na sala de aula. Aliás, o que será que ele pensaria se a conhecesse?

Ela era linda! Ele não conseguia parar de olhar. Tinha uma beleza leve e tranqüila que poucos garotos percebiam. Era inteligente e simpática, tinha uma das melhores notas da classe e sempre o ajudava nos exercícios complicados com um brilho nos olhos. À noite, em casa, sentia saudades de vê-la passar com o sorriso leve que os lábios sempre carregavam. Sorriso que podia ter qualquer propósito, mas para ele, era para ele. Sentia saudades de escutar a voz macia com as frases que nem sempre eram direcionadas aos seus ouvidos, mas que por si só já bastavam. Saudades de vê-la chegando pra aula e de saber que por mais um dia inteiro, estaria ao seu lado. Linda, simpática, inteligente, perfeita!! Ela podia ser quem ela quisesse, ela era perfeita.

O que será que o poeta pensaria dela? Uma noite, resolveu parar o poeta e começou a falar. Queria compartilhar aquela beleza com ele, mas queria também ter idéia do que fazer, de como agir perto dela. Contou tudo o que sentia e pediu conselhos. Quando voltou a falar, o poeta disse que só não tem perdão quem não rasga o coração. Ele não entendeu muito bem, mas fez igual a professora ensinou, tentou entender palavra por palavra e depois a idéia toda. No final, percebeu que o poeta estava lhe falando para contar tudo a garota, abrir o coração e expor os sentimentos.

No dia seguinte, falaria com ela no intervalo. Depois da aula de inglês e antes da aula de matemática. Tudo decidido, tinha até decorado uma declaração. Contaria como o coração batia mais forte quando a via, como era feliz quando por alguma razão seus olhares se cruzavam, como gostava de ouvi-la falar, como gostava do seu cabelo, da boca, dos olhos, do nariz, como ela era perfeita...

Bateu o sinal e a correria começou com centenas de crianças descendo para o pátio. Ele não acompanhou os amigos, deu uma desculpa, esperou um pouco e desceu as escadas sozinho, respirando fundo, tomando coragem. Ele sabia exatamente onde ela passava os recreios, todos os dias ela lanchava com as amigas em um banco encostado no muro do fundo do pátio. Não sabia como ela reagiria à declaração, então tinha decidido que a tiraria de perto das amigas para não deixá-la constrangida. Inventaria que precisava tirar uma dúvida sobre a prova de ciências, com certeza ela ajudaria e com certeza as amigas não iriam querer acompanhar aquela conversa chata.

Caminhou em direção ao fundo do pátio, ela estava lá, linda como nunca. Parou a uns 20 metros para respirar, tomar coragem e seguir em frente. Mas o ar que deveria encher os pulmões de confiança trouxe entretanto as lembranças da garota da terceira série, da garota da quarta série e da garota da quinta série. Ele já tinha muitas decepções amorosas para os seus 12 anos. Para que arriscar de novo? Além do mais, na próxima aula teriam exercícios em duplas e provavelmente dividiriam o mesmo livro. Deveria arriscar justo agora?

Ele a amava todos os dias e talvez ela não precisasse saber disso. Talvez ela não precisasse saber que tinha alguém ali ao lado dela a amando e que para ele, ela era perfeita. Ela não tinha defeitos e não precisava saber disso. Ela só precisava ser ela. Ela só precisava não estragar tudo. E pra que arriscar? Para que deixá-la sabendo disso, se ela poderia estragar tudo e sumir? E o medo? E o medo do fracasso? E o medo de ter se apaixonado novamente pela pessoa errada?

Decidiu não contar, deu a ela uma chance de não estragar tudo, de continuar perfeita pra sempre. Sempre lembraria da garota da sua infância. Esse seria o presente que daria ao seu amor, a eterna perfeição. Nunca lhe disse nada, desobedeceu ao poeta e a conservou.

Hoje, 30 anos depois e momentos antes de assinar os documentos da segunda separação, ele lembrou da garota e do poeta. Onde estaria ela agora? Como estaria ela? Como teria sido se não tivesse respirado fundo, se tivesse obedecido ao poeta? Será que ainda a amaria? Será que ainda seria perfeita? Será que estaria com uma caneta na mão agora?

Dois tapas nas costas espantaram os pensamentos “Que foi, se arrependeu?” e ao desenhar seu nome no papel respondeu em tom melancólico “Não, só imaginando como tudo poderia ter sido diferente.”