quinta-feira, 17 de abril de 2008

Um toco e um pagode em Londres!

Londres, como qualquer cidade, tem suas histórias e estórias. Essa é uma daquelas estórias que não entraram para a história e ninguém conhece (pelo menos eu não conhecia), mas vale a pena – no caso vale a carga da bic que eu to usando para escrever isso enquanto o trem não chega!

1976, Toquinho estava por aqui em Londres. Veio para a Europa em uma turnê com Chico Buarque pela Itália, mas no meio do caminho se engraçou com uma inglesa e acabou dando umas voltas em Londres. Depois de alguns dias se esquentando em cobertores ingleses, levou um pé na bunda. Na noite do fatídico acontecimento andava sem rumo e desconsolado pelas ruas frias de Londres, quando (não sei como) reconheceu um brasileiro encostado no balcão de um pub. Era Zeca.

Zeca estava em Londres por engano, na verdade ele deveria estar em São Paulo para um pagode beneficente que só aceitou participar quando garantiram que teriam algumas várias Brahmas. Mas chegou tão bêbado no aeroporto que até hoje ele não sabe explicar como pegou o avião errado e foi parar em Londres.

Toquinho entrou no pub, sentou ao lado de Zeca, pegou uma Guiness (para desespero de Zeca, aqui não tinha Brahma) e desabafou com o “amigo”. Contou-lhe toda a história e sofrimento. Zeca, como todo bêbado, resolveu consolar o “Pequeno Toco” (apelido que ele tinha acabado de inventar e achava o máximo), dizia algo do tipo: “Não se preocupe, essas coisas acontecem. O jeito é ir levando a vida. Na verdade você tem mais que agradecer por estar bem, por estar aqui bebendo comigo!” Nesse momento, ele percebeu que já não tava ajudando muito, então resolveu contar ao “Pequeno Toco” a história do vôo errado, e como as coisas poderiam ser piores.

Toquinho deu muita risada e já com um semblante mais descontraído comentou: “Muito boa essa história, não sei se é pra rir ou pra chorar”, depois de uma pausa e um longo gole de cerveja, completou: “É Zeca, a vida é como esse avião aí que você pegou. Ninguém sabe o destino, ninguém sabe onde vai parar.”

Zeca concordou, pediram outra cerveja e decidiram compor uma música, sobre aquele encontro. Pegaram um guardanapo, uma caneta com o “garçom” e até chegaram a escrever algumas coisas. Mas o estilo era tão diferente um do outro que não conseguiram entrar em um acordo. Zeca, como todo bêbado, não admitia que mexessem em suas letras e Toquinho não aceitava “empobrecer” seus versos para se adequar ao “pagodinho” de Zeca.

Desencanaram da musica e continuaram bebendo e conversando.
Alguns anos depois Toquinho incluiu aqueles versos numa musica que compôs com outro parceiro. E Zeca, colocou o seu pagodinho em um refrão que também faria sucesso. Nenhum dos dois fez referencias ou menções ao outro na co-autoria da música e nem sequer cederam uma participação especial, porque no final daquela noite tiveram uma grande discussão a respeito da conta e até hoje não voltaram a se falar.

Eu só soube dessa história graças a João, um brasileiro, filho de portugueses, que está há 35 anos trabalhando como “garçom” em Londres. Foi ele quem emprestou a caneta e apartou a briga naquela noite.

Depois de me contar toda essa história, João tirou da carteira o guardanapo que guarda até hoje como um tesouro e mostra para todo brasileiro incrédulo como eu.
No guardanapo estava escrito:

“O futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Não tem tempo, nem piedade, nem tem hora de chegar.
Sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar.
Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá. O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar.
Mas se a coisa não sai do jeito que eu quero também não me desespero, o negócio é deixar rolar.
E aos trancos e barrancos lá vou eu!
Sou feliz e agradeço por tudo que Deus me deu.”
- não me responsabilizo pela veracidade da estória, foi João que me contou. Acredite se quiser!