sábado, 29 de março de 2008

Brasil e Suécia

Quarta feira teve jogo do Brasil e Suécia aqui em Londres. Quando fiquei sabendo do jogo há um mês atrás fiquei com muita vontade de ir. Mas depois vi que era caro, foi passando o tempo, ninguém tava falando muito do jogo, nos jornais aqui ninguém nem citava a partida, a vontade foi passando e desisti de ir. Decidi que iria assistir o jogo em algum pub que provavelmente estaria cheio de Brasileiros e seria legal do mesmo jeito.

No dia do Jogo recebi uma mensagem no cel de uma amiga falando que ia assistir o jogo num Pub X. Resolvi ir nesse pub também. Desconfiava que não ia passar o jogo lá, pq na mesma hora teria jogo da Inglaterra e França, então provavelmente só passaria o jogo do Brasil em algum bar brasileiro. Mas resolvi tentar esse pub mesmo, já que ela estaria lá.

Saí de casa as 17:45 para pegar o metrô e ir até o Pub, ia chegar cedo para arranjar uma mesa boa, já que o jogo só começaria 19:45. Antes de chegar na estação passei no caixa rápido, saquei o dinheiro do aluguel, porque não sabia se ia lembrar de sacar na volta.

Quando cheguei na estação vi um grupo de brasileiros, camisetas, gorros, bandeiras, perucas, cornetas e toda parafernália que se leva para um estádio. Foi nessa hora que me deu uma vontade absurda de seguir aqueles brasileiros e ir para o estádio também. Mas tava muito em cima da hora, provavelmente não teria mais ingressos, e se tivesse seria muito caro e eu estava sem condições. Entrei no metrô e os brasileiros também, eles falando do jogo e a vontade aumentando, eles alegres, contentes e felizes, e eu com cada vez querendo mais ir ao jogo. Enquanto eles faziam a minha vontade aumentar eu repetia para mim mesmo “não vou, não vou, não vou”. Tava sem dinheiro e eu tava indo pro Pub encontrar minha amiga.

Eu ia descer na mesma estação que eles para fazer baldeação, eu ia pegar a Northen Line para ir pro Pub e eles a Victoria Line para ir pro estádio. Estava decidido, ia pro pub. A estação chegou e de todos os vagões desceram milhares de brasileiros, camisetas, gorros, bandeiras, perucas, cornetas e toda parafernália que se leva para um estádio e eu: “não vou, não vou, não vou”.

Foi aí que eu vi um grupo de suecas também indo pro estádio, todas loiras, branquinhas, olhos azuis, lindas, com a bandeira da Suécia pintada nas bochechas. Então me desconcentrei, parei de repetir o meu mantra “não vou não vou não vou” e quando eu vi já tava na Victoria Line indo para o estádio também.

Já que tava indo para lá, decidi tentar comprar um ingresso de ultima hora. Desci na estação de metrô junto com os brasileiros e tive que andar um bocado até chegar no estádio debaixo de uma garoa fina e um frio chato. No caminho, um monte de Brasileiros fazendo barulho e eu preocupado com meu ingresso. Apareceram alguns cambistas indianos muito suspeitos, oferecendo ingressos, mas não tava afim de arriscar não. Já que tava indo pro estádio ia tentar comprar na bilheteria primeiro, não queria dar meu dinheiro para um Indiano e depois ser barrado na entrada com ingresso falso. Desvencilhei-me dos cambistas e continuei andando.

Cheguei na primeira bilheteria e estava fechada. Me informaram que talvez a bilheteria do outro lado do estádio estivesse aberta ainda, se eu corresse poderia conseguir comprar. Corri. Depois de muito frio, chuva e cansaço cheguei na outra bilheteria. Fiquei na fila, esperei minha vez, respirei fundo e perguntei quanto era o ingresso mais barato. Niquiqui o cara falou o preço várias coisas aconteceram em segundos mais ou menos nessa ordem:
  1. primeiro começaram a passar na minha cabeça imagens de tudo o que eu poderia fazer ou comprar com aquela dinheirama toda. Não vou citar as coisas aqui para não me arrepender depois e nem ser julgado. Me reservo o direito de ocultar esses detalhes.
  2. Depois numa rápida olhadela para os lados vi vários brasileiros felizes indo ao estádio e eu como um bom brasileiro que sou, que não desiste nunca, não poderia ficar de fora dessa festa.
  3. Então comecei a lembrar do outro único jogo do Brasil que tinha assistido no estádio. Fui eu, meu pai e meu irmão tentar comprar ingressos no Morumbi faltando uma hora para começar o jogo. Me veio a cena de nós três na saída do estacionamento muito tristes porque não tínhamos conseguido ingressos e em seguida a nossa felicidade depois de meu pai encontrar no meio da multidão alguns amigos que tinham justamente 3 ingressos sobrando.
  4. Lembrei do dinheiro do aluguel no bolso, e achei que 90 minutos era mais do que suficiente para arranjar uma boa desculpa para atrasar um pouco o pagamento.
  5. Enfiei a mão no bolso contei o dinheiro com as pontas dos dedos. Abri o casaco. Estufei o peito e falei: “pode enfiar a faca”!

Comprei o ingresso e me encaminhei para o meu setor que obviamente era do outro lado do estádio. Mas dessa vez pude dar a volta por dentro e ir observando como as coisas podem ser civilizadas dentro de um estádio de futebol. Corredores acarpetados, poltronas almofadadas nos bares, telas de plasma espalhadas pelos salões, coisa de primeiro mundo!

Minha cadeira era no segundo andar, mais ou menos na direção da meia lua de uma das áreas, ótimo lugar, ótima vista. E como era na ultima fileira do setor, poderia ficar de pé sem ninguém me enchendo o saco atrás. Cheguei e estava vazio ainda, resolvi comprar uma cerveja, já que tava na Inglaterra, teria que assistir o jogo tomando minha pint! Mas só depois descobri que não poderia ir para o meu assento com a cerveja, teria que tomar no bar. Fiz amizade com o cara que tava servindo as bebidas e peguei informações de como eu poderia trabalhar lá nos próximos jogos. Afinal vou ter que repor essa grana de algum jeito.

O estádio lotou, 60.021 pessoas! Tudo brasileiro. Vocês devem estar se perguntando a respeito das suecas da estação de metrô, pois é, eu também me perguntei. Não vi uma sueca no estádio, acho que era uma ação marketing para os brasileiros trouxas irem ao jogo. Só tinha brasileiro do meu lado. E brasileiro adora uma festa, tinha gente que nem assistiu o jogo, ficou só preocupado com a “ola” e com as maquinas fotográficas.

Onde eu tava era perto de uma área vip, e no intervalo teve um coquetel e um show de uma bateria de escola de samba, com direito a mulata requebrando e tudo mais. Não tive acesso aos drinks mas pude ver o show e a mulata. No final do jogo teve um show de uma banda sueca, com umas suecas muito sem graça cantando e dançando com os dedinhos pra cima, estilo Angélica quando ela ainda namorava o César Filho!

Não vou comentar o jogo porque vocês devem ter assistido e se não assistiram podem ler o comentário em qualquer site esportivo. Mas o jogo tava chato como a maioria dos amistosos da seleção. No segundo tempo entraram Pato e Anderson que “salvaram” a noite. O Pato fez o gol e o Anderson foi vaiado desde que o alto-falante anunciou a substituição, motivo: ele joga no Manchester e o jogo da seleção foi no estádio do Arsenal. Era só ele pegar na bola que a torcida vaiava. O coitado não teve tranqüilidade para jogar. Mas era engraçadíssimo, a bola chegava nele trazendo junto as vaias, e ele tentava se livrar da bola e das vaias o mais rápido possível. Numa dessas tentativas de se livrar da bola ele deu uma bicuda pra frente que o Pato teve que se matar para conseguir chegar na bola, dividir com o goleiro e fazer um golaço. Resumindo, a jogada do gol brasileiro começou com as vaias da torcida! Eu participei do gol do Brasil!

sexta-feira, 28 de março de 2008

Canta dança e sapateia

Não é novidade para ninguém que Londres é abarrotada de musicais. Não sei porque tanto musical junto e ao mesmo tempo, ainda não entendi direito o porque de todo esse fascínio dos Londrinos e dos turistas por esses espetáculos. Mas todo e qualquer musical que você possa imaginar está em cartaz em Londres. De O senhor dos Anéis a Monty Python, de Rei Leão a Chicago, tem tudo aqui. É só escolher e estar apto a pagar, pois como a maioria das coisas aqui o preço é bem salgado.
Um dos próximos musicais a entrar em cartaz aqui é Oliver!, um musical de 1960 que vai voltar aos palcos ainda esse ano. Para selecionar a atriz e o ator principal, nesse momento está passando na BBC um programa estilo “Ídolos”. A diferença é que nesse caso o participante tem que saber cantar, dançar e atuar!
Bom, o fato é que estão escolhendo uma atriz para ser a Nancy e um garoto para ser Oliver. E o programa, até hoje pelo menos, está apenas nas eliminatórias, escolhendo os finalistas para as etapas com a participação do público. Entre uma eliminatória e outra elas passam por aulas de canto e interpretação.
Ok, é um programa normal e não teria nada de mais se eu não tivesse acabado de descobrir que as aulas de canto, dança e sapateado acontecem nessa casa da foto aí em baixo. Que por coincidência é onde eu tenho aulas todas as tardes! Pois é, acabei de descobrir quem eram as infelizes que ficavam cantando, dançando, pulando e sapateando no andar de cima enquanto eu tentava entender o que que o professor de estatística estava tentando me explicar com aquele maldito sotaque escocês!



segunda-feira, 24 de março de 2008

Páscoa sem coelho

Como pretendo ficar um ano por aqui vou, provavelmente, passar por todas as datas festivas aqui na Inglaterra, ou em qualquer outra cidade da Europa. Já passei por algumas datas mas que não tiveram muita atenção por parte dos Londrinos. Primeiro foi o dia dos namorados, como eu tinha acabado de chegar, solteiro, sozinho e nesse país frio, acho que fui eu mesmo que resolvi não prestar atenção nessa data. Ela passou e fiz questão de não perceber.
A segunda data foi o dia das mães que aqui foi em Março. Foi tão sem graça que nem considerei dia das mães. Na verdade foi tão mal aproveitado comercialmente que só fui perceber que foi dia das mães no dia seguinte.
Semana passada teve St. Patrick Day, mas para esse vou escrever um texto especial contando como foi. E ontem foi Páscoa! Ontem sim, considerei a minha primeira data festiva em Londres.
Mas a páscoa aqui é um pouco diferente, talvez porque eu tava sozinho, mas a data aqui tem suas peculiaridades. A Páscoa é muito mais divulgada que o dia das mães por exemplo, mas não chega nem perto do “barulho” feito no Brasil. Aqui eles não tem muitos ovos de páscoa, não tem aqueles corredores de supermercado abarrotados de chocolate, não tem aqueles túneis de ovos, o povo se debatendo para pegar o ovo em promoção nas Lojas Americanas, promotoras explicando os diferenciais de cada ovo, e todas as coisas que a Páscoa envolve no Brasil. Aqui, só vi uns 4 ou 5 tipos de ovos, todos eles em caixas, não são vendidos embalados em papel celofane, são vendidos em caixas e latas, e ficam numa prateleira num canto escondido do supermercado.
Mas por outro lado, vi várias lojas de diversos segmentos fazendo promoções de Páscoa. Televisão, computador, roupas, móveis, aparelhos domésticos, tudo em promoção por causa da páscoa. Vai entender.
Bom, acordei no domingo de Páscoa, com a esperança que o coelhinho tivesse trazido alguma coisa para mim, mas não. Acho que ele se esqueceu. Mas mesmo assim olhei pela janela com a esperança de ele ter deixado no jardim, mas não tinha ovo nenhum, em compensação tinha neve!!!! Vi neve pela primeira vez. Tá, não era uma nevasca, era uma nevezinha bem fraca, mas era neve, e para um brasileiro tava bom demais.
Coloquei um casaco por cima do pijama e saí na rua para ver a neve cair. O gramado em frente de casa tava todo branco, e os carros na rua e as muretas estavam com uma camada macia de neve. Peguei um punhado de neve da mureta da frente de casa e fui moldando minha primeira bola de neve enquanto dava volta no quarteirão debaixo da neve fina caindo. Não sei como explicar a textura da neve, não sei explicar como é a neve, sei que é fria, minha mão tava gelada brincando com o punhado de neve e meu rosto tava congelando com uma pedra de gelo bem no meio, no lugar do nariz.
Terminei a volta no quarteirão e já não tava mais caindo neve, e a bola de neve na minha mão, que poderia ter sido a cabeça do meu primeiro mini-boneco de neve, resolvi espatifar no muro do outro lado da rua.
Entrei em casa, enfrentei mais um banho, tomei um café e resolvi procurar uma igreja. Já que era Páscoa e se já não tive ovo de Páscoa pelo menos a missa tinha que ter. Não sei onde tem igreja aqui perto, daí resolvi ir a uma que tinha visto no dia em que fui na Abey Road. Era pequena, tava lotada, a missa foi boa. Parecida com a do Brasil, algumas pequenas diferenças mas nada de mais. O que é engraçado é que as leituras em outra língua parecem ser muito mais importantes. Durante as leituras me senti assistindo à introdução de algum filme épico, sei lá porque.
Depois da missa fui almoçar. Por ser Páscoa e por estar em Londres, a única coisa que poderia comer era um Fish and Chips, que é um prato típico aqui de Londres e se resume em um filé de bacalhau, com batatas fritas e ervilhas. Pronto não tive ovo de páscoa mas pelo menos o bacalhau estava garantido.
Voltei para casa e passei o resto do dia no quarto tentando me esquentar debaixo do cobertor, estudando, lendo, assistindo tv e o restinho de neve que de vez em quando caía do lado de fora.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Batalha diária

6:00 da manhã à 0oC
Mensagem no celular: Passo aí para te pegar as 7:00
Mensagem mental: Preciso tomar banho
Mensagem corporal: Não saio da cama de jeito nenhum!!!

É assim que começa a maioria dos meus dias.
Depois de alguns minutos me revirando na cama e tentando conciliar as mensagens, vou ao banheiro para tomar banho! É nesse exato momento que eu me pergunto todo dia: “Por que cargas d’água eu resolvi sair do Brasil?”. O banho é definitivamente um dos piores momentos do dia. Além de ser um frio do caramba e ser praticamente de madrugada, o banheiro aqui não tem um chuveiro decente, não tem uma DUCHA! Uma LORENZETTI!! Que saudades da Lorenzetti! Tenho que tomar banho de chuveirinho, com água morna, é, não é quente, é morna.
Bom, já devem ter imaginado o sofrimento. Depois de alguns dias sofrendo absurdamente, passei a adotar uma tática para os banhos dos dias mais frios. Tomar banho por partes. A eficiência é garantida e o sofrimento minimizado. Vou explicar como:
Primeiro detalhe, tirar toda a roupa assim que entra no banheiro é o maior erro de todos!
Primeiro, abro o chuveiro e espero até ter certeza absoluta que consegui a atingir a maior temperatura possível da água.
Aí sim começo a tirar a roupa, mas só a parte debaixo: calça, cueca e meia. A camiseta e a blusa do pijama ainda não. Aproveitando que não é uma ducha e sim “chuveirinho”, tomo banho primeiro só da cintura para baixo enquanto continuo agasalhado da cintura para cima.
Depois de terminada a primeira metade do corpo, não tem mais jeito. É hora de enfrentar o sofrimento. Tiro a blusa e a camiseta e termino o restante do corpo, deixando a cabeça para o final, claro. A cabeça é a última etapa, quando preciso ter muita atenção e destreza, qualquer segundo perdido é mais um momento de sofrimento.
Bom, depois de terminada a parte de baixo, a parte de cima e a cabeça, chegou a hora de desligar o chuveiro e se enxugar, certo? NÃO!!! Lógico que não, se fizer isso eu morro de frio, o correto é se secar com o chuveiro ligado! Enquanto seco a cabeça, foco o chuveirinho do pescoço para baixo. Enquanto seco os braços e o tronco, foco o chuveirinho da cintura para baixo. E só depois ter secado a parte de cima da cintura e ter colocado a camiseta, que estava estrategicamente posicionada, desligo o chuveiro e me seco da cintura para baixo.
Essa é a minha batalha que se inicia a cada dia!
O lado bom, é que depois de tomar esse banho eu sei que, muito provavelmente, a pior parte do dia já passou. E já estou pronto para enfrentar qualquer coisa.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Speaker's Corner

Uma das coisas boas de se morar em Londres, é que você já está em Londres. Não precisa viajar para conhecer lugares turísticos, basta sair de casa e procurar por um. Se você não achar nenhum, o que é difícil, tire foto de qualquer prédio e depois invente uma história sobre ele e pronto.

Mas é fácil achar pontos turísticos por todas as partes. Domingo eu saí de casa para comprar algo para tomar café da manhã, como não tinha nada aberto perto de casa comecei a andar até achar algo para comer. Como eu já tinha andado bastante resolvi andar mais, sem rumo. Só andar.

Nessa andança acabei passando pela Abbey Rd, andei por ela inteira procurando a tal famosa faixa de pedestres que, de acordo com Murphy, só poderia estar na outra extremidade. Mas achei, tava lá: eu, a faixa de pedestres e uns 10 turistas tirando fotos na mesma posição da capa do disco dos Beatles. Confesso que só não tirei uma foto atravessando a rua, porque tava sem a maquina fotográfica. É um tanto engraçado ver os turistas tirando fotos, porque a rua é relativamente movimentada. Mas como os turistas estão na faixa de pedestres os carros precisam esperar eles atravessarem, o que às vezes demora alguns ajustes de foco, zooms out, zooms in, uma leve ajeitada no cabelo..... enquanto isso os carros lá, esperando. Ahhh se fosse em São Paulo com certeza já teriam morrido alguns turistas atropelados.

Ok, primeiro ponto turístico do dia, mas não desisti, continuei andando sem rumo. Andei um bocado, prédios, igrejas, mais prédios, lojas, avenidas e quando eu vi estava no Hyde Park, Mable Arch e Oxford Street, mais pontos turísticos. Mas o que mais me chamou atenção foi a Speaker’s Corner no Hyde Park. É um lugar aonde as pessoas vão para discursar, para falar de qualquer coisa que tenham interesse. Depois vim a saber que dentre os frequentadores deste lugar no passado estavam Karl Marx, George Orwell e Vladimir Lênin. Mas hoje em dia, pelo que me pareceu, o povo que discursa lá não é tão nobre assim. Logo que cheguei nesse lugar vi umas 30 pessoas em volta de um sujeito sobre uma escadinha de 3 degraus e uma pequena lousa no chão apoiada na escada. Na lousa estavam escritos uns 10 tópicos sobre os quais ele estava apto a discursar, o público escolhia um tema e ele começava a falar.

O primeiro tópico que o ouvi defender foi que as mulheres devem apanhar. Que todo homem deve bater na sua mulher, namorada ou noiva e deve bater única e exclusivamente porque elas gostam. O cara era muito engraçado e levava o publico a gargalhada, até mesmo as mulheres. Logo em seguida um rapaz que estava assistindo os discursos escolheu o tema diferenças culturais, mas ao mesmo tempo um outro senhor escolheu sexo com animais. Depois de uma rápida votação entre o publico, que a essa altura já tinha praticamente dobrado, obviamente sexo com animais venceu com uma larga vantagem. O cara começou a defender sexo com animais, e o publico se matando de dar risada.

Dei alguns passos para fora da pequena multidão que tinha se juntado e a menos de 5metros do discurso sobre zoofilia tinha outro cara sobre um banquinho. Dessa vez era um senhor, negro, barbudo, discursando e apoiando as guerras santas e os “soldados de Deus”, O público dele era um pouco menor, mas muito mais contestador, achei que uns lá iam sair no tapa, mas eles eram Ingleses e discutiam gritando “Excuse me Sir!” “Sorry Sir”. E não passou disso.

Voltando para casa, agora de metrô, decidi que um dia ainda vou voltar àquela praça, subir num banquinho e começar a discursar. A meta é manter um público de pelo menos 15 pessoas por 10 minutos. Se conseguir isso, vou poder colocar INGLÊS FLUENTE no meu currículo sem medo algum! Só preciso decidir qual será o tema!

sábado, 1 de março de 2008

Façam as suas apostas

Incrível como o povo britânico gosta de apostar! A loteria aqui é super famosa, o sorteio é feito na tv, num programa com apresentadores, modelos pegando as bolinhas e etc.
No trabalho a galera faz uma vaquinha, cada um dá £1,0 por semana para a fezinha e o dinheiro acumulado, se houver algum ganho, vai para a caixinha e no final do ano a galera divide o dinheiro! Como se isso não bastasse está sendo organizada uma integração entre os funcionários numa corrida de cães.
Para não ficar por fora, e também matar a minha curiosidade, hoje resolvi entrar em uma das milhares casas de apostas que tem por aqui. Precisava aprender como funciona para não fazer feio com o pessoal da “firma”. Entrei na casa, por sorte, sem dinheiro algum no bolso, e comecei a acompanhar uma corrida de cães em uma das várias tvs espalhadas pelas paredes. O cachorro que eu tava torcendo sumiu da tela e acho que acabou em uma das ultimas posições. A principio achei meio sem graça, depois comecei a entender melhor, nas tvs tem vários dados sobre as próximas corridas, tipo a velocidade média de cada cachorro naquele tipo de corrida, as ultimas corridas de cada um, a velocidade de arranque e etc... a partir daí dá para fazer apostas e torcer. Em seguida começou uma corrida de cavalos movimentadíssima, os velhinos que estavam sentados ficaram todos entusiasmados gritando coisas do tipo: “go baby, go BABY, GO BABY!!! YEAHHHHHH!!!!” muito estranho!

Mas resolvi focar em uma corrida de cavalos que ia começar as 2:00, fiquei observando os nomes dos cavalos, qual era favorito, a cor da camisa dos jóqueis e mentalizei uma aposta. Não tinha dinheiro então só fingi que tinha apostado, triste, eu sei. A minha aposta era em primeiro o número 7 Crackadee, em segundo no.9 John Diamond e em terceiro no.6 Snowy. Peguei minha cadeira e fiquei esperando a corrida começar. Quando começou a transmissão, vi os cavalos chegando e tive certeza que o número 3 um tal de Jack alguma coisa ia dar trabalho. Ele tava todo serelepe esperando a corrida começar enquanto que o Snowy tava cabisbaixo. Mas tudo bem, já tinha feito minha aposta mental, agora tinha que torcer.
Assim que a corrida começou o número 3 disparou na frente, seguido por um pelotão de cavalos entre eles o Crackadee, o Diamond corria por fora e o Snowy lá atrás coitado. Acabou a primeira volta, com Jack alguma coisa em primeiro Crackadee em segundo disputando posição com um outro cavalo, Diamond por fora e Snowy nem aparecia. Na segunda volta o Crackadee já caiu para quinto, Diamond continuava por fora sem se misturar com o resto e o Jack em primeiro firme e forte. Mas na terceira e ultima volta o Jack não agüentou, começou a cansar, cansar e acabou sendo engolido pelo pelotão que vinha atrás e numa disparada fenomenal Diamond se distanciou absurdamente de todo mundo, tomou a dianteira e era certeza que ia ganhar, quando de repente o Crackadee saiu da quinta posição ultrapassando todo mundo, encostou no Diamond na ultima curva e os dois foram pau a pau até a linha de chegada onde Crackadee cruzou com uma cabeça a frente de Diamond! Ahhh.... primeiro palpite em corridas de cavalos e eu acertei as duas primeiras posições!! Ainda bem que tava sem dinheiro se não já ia me entusiasmar e perder as calças lá!

Decidi ir embora antes que começasse outra corrida! E quando tava saindo vi um luminoso no canto da casa de aposta escrito: “Ifcat Trip bet here”. Achei estranho e fui ver do que se tratava aquilo. Descobri que era um jogo gigantesco que começou no Brasil logo no início do ano e virou febre aqui em Londres, todo Londrino acompanha. A idéia é apostar quanto tempo vai durar a viagem do Ifcat nas terras da rainha. Grandes apostadores perderam fortunas acreditando nas opções mais populares, tais como:
- Não chega nem em Guarulhos!
- Vai ter caganeira no aeroporto e não vai embarcar!
- Vai ser barrado na Imigração em Londres!
- Com essa cara de bobo, não dura nem uma semana!
E assim por diante....
Atualmente os tablóides gratuitos aqui começaram a acompanhar o jogo e as apostas aumentaram. Já tem gente apostando em um possível casamento com uma das netas da Rainha o que levaria o coitado a ter que entrar para a aeronáutica Inglesa para provar o amor a pátria e a viagem acabaria em uma batalha no Iraque.
Aproveite faça a sua aposta também!
Coloque um comentário com sua aposta, deposite sua grana na minha conta e eu vou até a casa de apostas mais perto e oficializo sua fezinha.
Aqui o importante não é competir, o importante é apostar!

Não perca tempo! Aposte Djá!

uma semana

17/02/2008

To aqui há um pouco mais que uma semana, já estou entrando na rotina do povo daqui, mas ainda falta muito para me acostumar.
Apesar de muita coisa ser muito parecido com a minha vida em São Paulo (Graças a tal da Globalização) ainda tem muita coisa peculiar que não é fácil de se acostumar.
A começar pelo transito, todo mundo sabe que aqui os carros andam no sentido contrário e que a direção fica do outro lado do carro, mas não é fácil de lembrar disso toda hora. A primeira coisa que eu vi aqui em Londres quando saí da estação de trem no primeiro dia, foi um carro em alta velocidade com uma criança dormindo ao volante, só depois do susto que fui lembrar que o volante era do outro lado. Agora já estou um pouco mais acostumado, mas tenho que ficar repetindo pra mim mesmo quando vou atravessar a rua: “primeiro olhar para direita, depois para esquerda”. Ahh, ainda não peguei nenhum ônibus de dois andares, e nem um daqueles táxis pretos. Possivelmente nem pegarei tão cedo. Por falar nesses táxis, um dos maiores mistérios atuais de Londres envolve um deles. Um dos taxistas da cidade, está abordando as passageiras com champagne, dizendo que ganhou na loteria e que gostaria de comemorar, mas ele coloca tranqüilizantes na bebida e depois abusa delas. Até agora 3 mulheres já prestaram queixa, mas acredita-se que existam mais mulheres que não prestaram queixa por vergonha. Se fosse no Brasil o cara já estaria sendo chamado de o Maníaco do Táxi!
Voltando aos costumes, depois do transito, tem as comidas. Eles realmente comem ovo mexido com salsichas no café da manhã. Mas o mais estranho é o café, eles bebem café como se fosse chá. No Brasil se te oferecem café, normalmente vem aquela xícara pequena de café, com açúcar ou adoçante. Aqui eles normalmente perguntam: “café ou chá?” até agora nunca respondi chá para ver o que acontece, mas se você responde café eles enchem uma caneca de café aguado. Muito café, quer dizer muita água no café! E o mais engraçado, nos meus cafés da manhã aqui na casa, a Tina sempre coloca para mim, café e suco de laranja, o café nessa caneca gigante e o suco num copo bem pequeno com só dois dedos de suco!!! Vai entender esse povo!
Fora isso, qualquer lugar que você for comer, o prato vai vir acompanhado de “Chips” que são as nossas batatas fritas. A Chips deles é como se fosse nosso arroz, tem que ter sempre. Ahh, e ervilhas também, eles adoram ervilhas. Teve um dia que o jantar aqui foi: salsichas, purê de batatas, purê de ervilhas e ervilhas!
Outra coisa para se acostumar aqui é o jeito de se tomar cerveja, nos Pubs eles não servem as tradicionais garrafas de cerveja ou chop, aqui a cerveja vem nuns copos grandes, os pints, eu não lembro direito quanto tem em cada pint, mas deve ser o equivalente a um pouco menos que uma garrafa. Acho que esse vai ser uma das coisas mais fáceis de se acostumar.
Fora a comida e o transporte, tem o problema da língua. Apesar de conseguir me virar muito bem por aqui, tem algumas pessoas que eu tenho enorme dificuldade em entender. Eu não consigo entender muito bem o que a Tina diz por exemplo, não sei porque, acho que ela fala meio enrolado, nem ela nem o namorado dela. No trabalho é mais fácil de entender o que o povo fala, inclusive tem um cara que senta na mesa em frente a minha que fala exatamente igual àquelas gravações dos livros de inglês que a gente usa. Tenho certeza que ele ganha um dinheirinho extra fazendo essas gravações. Na escola tem algumas pessoas que eu entendo perfeitamente bem e outras não entendo nada. Na minha sala tem gente de diversos lugares do mundo: uma garota e um garoto do Nepal, uma da África do Sul, outra da Rússia, outra da Nigéria e uma brasileira além de um cara do Paquistão, um Italiano e um turco. Metade da sala já fazia esse curso no semestre passado, só eu, a nigeriana, a Nepalense (sei lá como se escreve) e a brasileira entramos agora nesse semestre. E eu não consigo entender nada, absolutamente nada do que o cara do Paquistão fala, parece que ele fala outra língua e muito pouco do que o cara do Nepal fala também. Mas eu fiquei mais tranqüilo quando o Italiano disse que ninguém entende o que o cara do Paquistão fala às vezes nem mesmo os professores, depois comecei a prestar atenção e sempre que o paquistanês fala alguma coisa, eles dão uma disfarçada e mudam de assunto. E o cara do Nepal, segundo o Italiano também, não fala inglês. Ele só solta algumas palavras perdidas de vez em quando mas não consegue formular frases.
De resto dá para entender bem, tenho um professor grego com um sotaque tão forte que parece que eu estou dentro do “Casamento Grego” a qualquer momento acho que ele vai começar a falar a origem grega das palavras em Inglês! A russa, a Nigeriana e o turco também tem um sotaque bem forte, a Sul africana e o Italiano já falam bem melhor. Ah, e claro, não pude perder a oportunidade de soltar as duas únicas frases Italianas que veio a cabeça: “Manja que te fá bene” e “Se tutti cornuti portati lampione Mama Mia que iluminatione!”. Esbanjei cultura Italiana!!!

Bom... vou comer alguma coisa agora! Provavelmente alguma coisa com Chips! E dá-lhe gordura Trans!!!!

Primeiras horas nas terras da Rainha

09/02/2008

Estou em Londres há dois dias, não conheço nada aqui ainda, não entendo direito o que as pessoas falam e ainda não aprendi a usar o chuveiro da casa, por sorte trouxe meu computador do Brasil e por sorte também achei um sinal de Internet perdido pelo ar aqui da vizinhança. Sem isso eu estaria completamente sem ter o que fazer aqui, nessa casa a noite, visto que os poucos programas que eu vi na TV Britânica são horríveis.
Na casa que eu estou, mora também um casal de americanos, que eu não sei o nome e nem consegui conversar direito com eles. Não apenas porque meu inglês é meio fraco, mas porque eles nem olharam na minha cara direito, estão sempre trancados no quarto, com um aviso do lado de fora escrito: “Não perturbe, estamos fazendo lição de casa”. Além deles, mora a dona da casa, Tina. Ela é bem simpática, mas não entendo muito bem o que ela fala, e a noite aparece um cara aqui que deve ser namorado dela, mas não sei se dorme aqui também.
A casa é bem pequena, mas muito arrumada. O meu único problema é com o banheiro. Ele até que é limpo, perto do meu quarto, está na maior parte do tempo livre, mas ainda não me dei bem com ele. A começar pelo chuveiro, já tomei 4 banhos lá e ainda não consegui entender como ele funciona. Toda vez que vou tomar banho, tenho que cantar: “Chuveiro chuveiro, não faz assim comigo, chuveiro chuveiro eu quero ser seu amigo”, mas não adianta. Acho que ele não entende português, e se cantasse em inglês perderia a rima da música. O caso é que ou ele esquenta muito e faz chá do meu couro cabeludo, ou ele esfria tanto que congela tudo, depois ele começa dar uns pulos e joga água para todos os lados no banheiro. Tenho que enxugar tudo, sempre. O outro problema do banheiro é a descarga, até agora não entendi como ela funciona também. Já tentei puxar umas 20 vezes a descarga, e só sai uma aguazinha bem de leve que nem muda o nível da água que já ta lá na privada. Só agora, na ultima tentativa do dia, eu consegui uma descarga decente, mas não faço a menor idéia do porque que agora funcionou.
Fora o banheiro a casa é boa, o quarto é minúsculo mas é o suficiente e a comida também é boa.
Ontem pela manhã, acordei cedo para ir para a escola e tomei café com a Tina, consegui entendê-la razoavelmente bem e ela também parece ter me entendido. Conversamos sobre nada muito interessante, ela ficou surpresa em saber que apesar de eu ser brasileiro eu não era da Argentina. Fez eu desenhar o mapa da América latina para mostrar onde ficava o Brasil, depois fez eu desenhar a Argentina, para ter certeza que não era a mesma coisa. Depois ficou espantada também em saber que apesar de brasileiro eu não falo espanhol e sim português. E eu que achava que essa história de os gringos confundirem Brasil com Argentina era lenda....
Depois do café fui para a escola, conheci o pessoal todo lá, tem gente de tudo quanto é lugar do mundo. Mas tava todo mundo quieto, calado, só observando. Então, para tentar uma integração entre os alunos, a diretora da escola começou a perguntar o nome de todo mundo, um mais estranho que o outro: da Índia, do Nepal, do Líbano... daí quando chegou minha vez, pediu para repetir porque não tinha entendido, e quis saber da onde era esse nome tão peculiar! Primeira vez na vida, que alguém acha meu nome estranho. Quando falei que era do Brasil, a primeira pergunta foi: “Então você fala espanhol?”
Apesar desse pequeno deslize da diretora, a escola parece ser boa. Depois de toda a apresentação da escola, com direito a ameaças de nos denunciar para a imigração caso a gente comece a faltar muito, eu fui dar uma volta nos arredores.
A cidade é muito bonita, muito movimentada, cheia de turistas, vários prédios antigos, arquitetura, cores, tudo, tudo diferente. Nesse meu passeio pelas redondezas, lembrei do problema da descarga aqui de casa e resolvi procurar um banheiro limpo para poder fazer as necessidades fisiológicas que todo ser humano conhece. Comecei a procurar por museus, shoppings, restaurantes, foi aí que passei em frente à Biblioteca Britânica.
Não teria entrado se não fosse o problema da descarga. O banheiro era muito bom, limpo e honesto! Mas o melhor de lá não é o banheiro, graças a ele eu pude ver vários livros e documentos antigos, entre eles: um trecho da Bíblia escrita em papiro no século III, uma cópia da Carta Magna, um manuscrito do Leonardo da Vinci provando a sua teoria de que existe água na Lua e a Bíblia de Gutemberg, eu achava que ela não existia de verdade. Mas existe tava ali na minha frente, do lado de uma indulgência que ele imprimia para a Igreja vender para os fiéis.
No dia seguinte, no caso hoje, fui dar uma volta pela cidade e aproveitei para passar pelo museu Britânico, dessa vez não foi o banheiro deles que me atraiu, apesar de ser muito bom também, O Museu parece ser absurdamente interessante, mas não consegui ver muita coisa, hoje estava tendo comemoração do ano novo Chinês, e o lugar tava lotado de turistas e maquinas fotográficas, muito mais que o normal. Eu só consegui ver uns Chineses dançando com umas espadas, umas esfinges, uns vasos, mas daí resolvi ir embora e voltar outro dia com mais calma.
Depois do museu eu fui para Oxford St. que é praticamente um Shopping a céu aberto, andei toda aquela rua a procura de uma blusa/jaqueta/casaco, qualquer coisa que pudesse me esquentar quando realmente esfriar. Por sorte consegui encontrar a loja mais barata de toda a rua justamente no ultimo quarteirão dela. É uma loja do tipo C&A, Renner, Riachuelo e similares, bem barata para a alegria do meu bolso. Consegui comprar uma jaqueta, que parece ser razoavelmente boa por apenas £8,00.

Bom, foi basicamente isso as minhas primeiras horas na terra da Rainha. Acho que escrevi muito.