domingo, 21 de setembro de 2008

Samba de três versos

O sol entrava pela janela e beijava delicadamente os pés dela. Como um amante carinhoso, subia lentamente pelas pernas, aquecendo e fazendo cócegas. Ela se virava manhosamente de um lado para o outro se espreguiçando com um sorriso leve nos lábios, como quem diz: “hoje não.” e como quem pensa “hoje.....”

Ele continuou a fazer o que todo e qualquer ser faria naquela situação. Leu os lábios, os pensamentos, o corpo e continuou a subir. Ela, aproveitou aquele mimo até o último minuto, até a ponta do último fio de cabelo despenteado.

Com o sol já em todo o quarto se levantou cantarolando “É melhor ser alegre que ser triste.....”, não sabia o porquê desta música na cabeça “...A alegria é a melhor coisa que existe......” se enrolou no roupão e antes de descer para o banheiro parou na janela para agradecer o sol “...É assim como a luz no coração....”

Tinha dia que acordava feliz, não sabia porque. Simplesmente acordava. Eram os melhores dias, os dias em que não tinha motivo para ser feliz. Ela achava meio banal estar feliz por qualquer motivo óbvio, mas adorava estar feliz sem motivos. O sentimento ia tomando conta do corpo aos poucos, ia moldando os movimentos e desenhando os passos. Era como se fosse uma marionete nas mãos da felicidade.

Sim, definitivamente era um show de marionetes. E apesar de só saber os três primeiros versos da música, a trilha sonora daquele dia já havia sido escolhida e aprovada.

O roteiro do show era igual a todos os outros: mesmo café da manha enquanto descia pelo elevador os 16 andares do prédio, o mesmo bom dia para o porteiro, o mesmo trajeto casa-trabalho e etc., mas a interpretação era única. O sorriso no canto da boca, o brilho nos olhos, os movimentos leves das mãos e a inocência da saia que se levantava, proporcionada pelo vento que havia ficado enciumado com a cena inicial, eram únicos.

Ela sabia que quando o dia começava assim, não havia quem estragasse. Não havia fato ou ato que a aborrecesse. Afinal, alegria é a melhor coisa que existe e, como ela gostava de dizer, felicidade traz felicidade. Esse era um jargão que gostava de usar, achava brega, mas às vezes até colocava no nick do msn.

Mas enquanto o dia andava, as horas consumiam a felicidade inicial. Cada minuto que passava a afastava um pouco da euforia da manhã e como num relógio de baterias fracas o período entre um verso e outro aumentava gradativamente.

Mesmo assim, ainda estava feliz. Ainda possuía um resto de leveza nos movimentos. O brilho dos olhos já não refletia com tanta intensidade a luz do sol que já estava se pondo, mas ainda aparecia em rápidos e esparsos flashes. Era como se o show estivesse no final. Como se a felicidade cansada de brincar de marionetes ou enjoada da trilha sonora de três versos fosse perdendo o interesse nela.

Chegou em casa cansada. Logo pela manhã havia combinado sair para jantar com o namorado, à tarde já havia mudado para uma coisa mais simples e menos complicada em casa e se ele já não estivesse lá, esperando, ela teria cancelado e feito um miojo.

Não estava mais tão vivaz como de manhã, tão alegre e radiante. Não estava mais se achando bonita e atrativa. Pediu desculpas ao namorado e chegou até a assumir uma certa tristeza no fundo do peito. Algo que ela não sabia explicar. Estava feliz, ainda estava feliz, tinha certeza disso, poderia até cantarolar os versos da manhã, mas estava cansada e com aquela tristeza leve brigando por um espaço no peito.

Ele escutou calmamente toda a descrição de sentimentos: a felicidade, a tristeza e as desculpas. Aceitava cada frase como um verso, como uma poesia, como uma música. Mas não aceitou as desculpas. Não conseguiu concordar com a falta de beleza e agradeceu por ela ser assim.

Enquanto ela se explicava, ele, com muita dificuldade, prendia entre os lábios um sorriso largo e observava como num verdadeiro espetáculo os braços que, ainda leves, não sabiam para que lado ir; as mãos que não sabiam onde repousar; os olhos que buscavam na incerteza da felicidade uma explicação para o inexplicável; a boca que procurava palavras para lançá-las ao ar; o medo bobo da falta de beleza e, acima de tudo, a insegurança infantil que pedia desesperadamente um abraço.

Quando ela acabou o show particular que havia reservado para ele naquela noite, antes do abraço, ele procurou uma coletânea do Vinicius que ela havia comprado numa promoção de jornal. Abriu a caixa, pegou as letras das músicas e leu pra ela apenas os três versos seguintes.

Finalmente ele a abraçou. Ela enxugava as lágrimas que lhe escapavam sem motivos enquanto ele dizia, entre outras coisas, que ela era o seu samba e que um bocado de tristeza até que lhe caía bem.
Foi assim que a lua, num sorriso crescente, viu o dia acabar, como num samba, como uma benção.