Vim para Londres com algumas missões a cumprir. Missões que acho que fazem parte da bagagem da maioria dos viajantes perdidos: conhecer, aprender, entender, lembrar, esquecer, fugir, encontrar, perder..... Algumas são fáceis outras mais demoradas, outras complicadas, outras só fui entender há pouco tempo atrás. Não acho que vou cumprir todas elas, mas vou me esforçar. E para motivar, vou tentar escrever algumas delas aqui na medida em que tiver algum progresso.
A de hoje é uma das que só fui entender recentemente.
Ela apareceu como uma mistura de pedido, conselho e lembranças alguns dias antes de embarcar: “Rafa, você vai adorar a Europa. É tudo diferente. Cores, cheiros... tudo!”. Prometi prestar atenção nesses detalhes. Prometi contar quando encontrasse as cores e cheiros novos. Mas confesso que não fazia ideia do que isso queria dizer.
Fiquei imaginando cores novas, cores que não estavam no pantone tupiniquim, que o Photoshop licenciado para o Brasil não mostrava na palheta de cores ou que a suvinil nunca havia conseguido reproduzir nas terras brasileiras, nem mesmo com aquelas máquinas doidas de fazer cores. Não vi nada disso aqui. E o único cheiro diferente que me chamou a atenção foi o do povo que não toma banho, que não vou citar as nacionalidades para não me tacharem de preconceituoso. Não era possível que esses seriam os cheiros da Europa!
Foi só há alguns dias que eu entendi. Numa noite dessas aqui em Londres, alguém, por algum motivo que não vem ao caso, me fez olhar para o céu. Dez da noite e o céu estava azul. Um azul bonito. Um azul que não era de céu de noite. Um azul bonito. Um azul que com certeza está no pantone. Que a suvinil já produziu no Brasil. Mas esse, era o azul do céu de Londres na noite de verão. Era uma das cores da Europa. Foi aí que eu lembrei de várias outras.... cores, cheiros e sabores da Europa. A cor dos prédios da Via Garibaldi no centro de Genova por exemplo. A cor do gramado do Green Park. A cor da neve. O cheiro dos wafles na Oxford street, que, no clássico estilo Pica-pau, vem dançando até o seu nariz e com a ponta do dedo te chama para segui-lo. O cheiro do sol de Londres. A falta de cheiro, de ar e de calor do sótão do hospital do campo de concentração de Berlin. A cor das flores da Piazza Corvetto. O sabor do sorvete na praia italiana. A cor do ar de Londres nas manhãs de inverno. E muitos outros.......
Ainda não descobri tudo, demorei para entender, mas valeu a pena.
Obrigado!
5 comentários:
Muito poético!
Sem dúvida inspirado....me trouxe lembranças do meu ano europeu.
Guarde essas lembranças de cores e cheiros (e pq não sabores?), preste muita atenção nas belas paisagens e arquitetura, perceba a beleza de Londres que os próprios londrinos já não conseguem ver.
As minhas lembranças mais doces de Madrid são sobre esses detalhes.
E qdo voltar pra terrinha aqui, fique atento a tudo de belo que existe por aqui, as cores, cheiros e sabores do Brasil.
Depois de um tempo longe, tudo isso fica muito mais interessante e impressionante.
Bjs da terrinha
fico feliz que você tenha entendido. isso é coisa rara; as pessoas, em geral, não prestam muita atenção.
eu ainda vejo muito claras as cores todas: a espanha é definitivamente amarela, por exemplo. barcelona cheira a café com cigarros e turrones de chocolate. é um cheiro que não é bom nem ruim - é apenas peculiar.
é isso o que me atrai nas peculiaridades: o fato de elas apenas SEREM. em todos os lugares, em todas as pessoas, nos cheiros, nas cores e nos sorrisos ou muxoxos estampados nas caras.
me dá muita vontade de sair de novo por aí. não quero parar nunca!
Rafa,
Você é definitivamente um poeta.
Lindo!!
Vou entender como se fosse um presente.
Adorei ler.
Hoje aqui ta chovendo, aterra ta molhada e tem um cheirinho bom...
cheiro de interior do Brasil.
Beijos, meu caro!
Sou sua fã!
Adri
Sentir eh raro, saber expressar eh um dom, E isso vc sabe muito bem!
Lindo!
Sua escrita provoca uma mistura de sensações e seu olhar, uma sinestesia: faz enrubescer a face, dá colorido aos sonhos e traz aos meus ouvidos o doce tilintar de sua poesia, que é como música, trilha sonora de uma cena em que deixarei de ser mera expectadora.
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