segunda-feira, 28 de julho de 2008

Missões I

Vim para Londres com algumas missões a cumprir. Missões que acho que fazem parte da bagagem da maioria dos viajantes perdidos: conhecer, aprender, entender, lembrar, esquecer, fugir, encontrar, perder..... Algumas são fáceis outras mais demoradas, outras complicadas, outras só fui entender há pouco tempo atrás. Não acho que vou cumprir todas elas, mas vou me esforçar. E para motivar, vou tentar escrever algumas delas aqui na medida em que tiver algum progresso.
A de hoje é uma das que só fui entender recentemente.

Ela apareceu como uma mistura de pedido, conselho e lembranças alguns dias antes de embarcar: “Rafa, você vai adorar a Europa. É tudo diferente. Cores, cheiros... tudo!”. Prometi prestar atenção nesses detalhes. Prometi contar quando encontrasse as cores e cheiros novos. Mas confesso que não fazia ideia do que isso queria dizer.

Fiquei imaginando cores novas, cores que não estavam no pantone tupiniquim, que o Photoshop licenciado para o Brasil não mostrava na palheta de cores ou que a suvinil nunca havia conseguido reproduzir nas terras brasileiras, nem mesmo com aquelas máquinas doidas de fazer cores. Não vi nada disso aqui. E o único cheiro diferente que me chamou a atenção foi o do povo que não toma banho, que não vou citar as nacionalidades para não me tacharem de preconceituoso. Não era possível que esses seriam os cheiros da Europa!

Foi só há alguns dias que eu entendi. Numa noite dessas aqui em Londres, alguém, por algum motivo que não vem ao caso, me fez olhar para o céu. Dez da noite e o céu estava azul. Um azul bonito. Um azul que não era de céu de noite. Um azul bonito. Um azul que com certeza está no pantone. Que a suvinil já produziu no Brasil. Mas esse, era o azul do céu de Londres na noite de verão. Era uma das cores da Europa. Foi aí que eu lembrei de várias outras.... cores, cheiros e sabores da Europa. A cor dos prédios da Via Garibaldi no centro de Genova por exemplo. A cor do gramado do Green Park. A cor da neve. O cheiro dos wafles na Oxford street, que, no clássico estilo Pica-pau, vem dançando até o seu nariz e com a ponta do dedo te chama para segui-lo. O cheiro do sol de Londres. A falta de cheiro, de ar e de calor do sótão do hospital do campo de concentração de Berlin. A cor das flores da Piazza Corvetto. O sabor do sorvete na praia italiana. A cor do ar de Londres nas manhãs de inverno. E muitos outros.......

Ainda não descobri tudo, demorei para entender, mas valeu a pena.
Obrigado!

sábado, 19 de julho de 2008

Uma cena italiana

Itália Itália...... Fiquei lá apenas um final de semana e foi o suficiente para querer voltar muitas outras vezes. Além da vista, da língua e da comida, a Itália tem as pessoas! Os Italianos e as Italianas! Tutti boníssima gente!
Sem muitos detalhes da viagem, vou apenas descrever uma cena. Uma das cenas que presenciei e que considero tipicamente italiana.

Sábado ensolarado resolvi dar uma andada pela avenida que beira as praias de Genova, ia parando de praia em praia, tirando fotos e cumprimentando as pessoas com “Bom giorno!” – sim, típico turista, eu sei.

Voltando de uma das praias para a avenida avistei, ao longe uma mercedes com a porta aberta, no meio da rua e na contra mão. Ao lado do carro uma vaga apertada e um sujeito em pé calculando como faria para colocar o dito cujo ali. O rapaz largou o carro lá no meio da rua, foi a pé até a vaga para pensar em como fazer.

Tenho que admitir que encontrar uma vaga naquela avenida era uma tarefa difícil até mesmo para motos. Aquela vaga foi um achado, o único problema é que era realmente apertada para a mercedes.

A vaga era alguns centímetros menor que o carro e em cada uma das pontas tinha uma lambreta. Era fisicamente impossível colocar o carro lá. Mas o cara não se fez de rogado, arrastou as duas lambretas um pouco pros lados. Sem nenhuma cerimônia, levou a azul um pouco para a esquerda, depois a amarela mais alguns centímetros pra a direita e.... Pronto, a vaga ainda era apertada para a mercedes, mas um bom motorista a colocaria ali.
Quando cheguei perto da cena ele estava batendo as mãos para tirar a poeira e olhando para vaga claramente calculando o espaço.

“Bom giorno” – disse eu

“Bom giorno” – disse ele

A partir daí o diálogo não foi em italiano, nem em inglês, nem em português. Não consigo definir a linguagem utilizada, mas foi uma mistura disso tudo com espanhol, mímicas e expressões faciais. Resumindo bem, foi mais ou menos assim:

“tudo em ordem?”

“sim sim, será que cabe?”

“talvez, tenta aí que eu ajudo”

O cara entrou no carro e eu fiquei lá de flanelinha. Gastando todo o meu italiano:

“Gira a sinistra!” “gira a destra” e coisas como “só mais um piccolo”

Eu até que tava me virando bem na minha função mas o cara era muito ruim no volante. Depois de alguns minutos perdidos e algumas tentativas frustradas resolvemos desistir da vaga. O tio foi embora e não me deu nenhum trocado. Mesmo assim me senti no direito de me presentear com um sorvete. Limão com morango. Era o melhor de toda a Itália. Sem dúvida entrou para a lista de sorvetes inesquecíveis!