sábado, 14 de junho de 2008

O altruísta da barca do inferno

Era egoísta. Admitia e não tinha vergonha. Só pensava nele. Se não fizesse isso, quem faria? Levava esse pensamento a sério e chegou até a desenvolver uma regra de convivência consigo próprio, para que ele mesmo não perturbasse a sua paz.

Apesar de egoísta um dos seus hobbies era cultivar amigos. Não que se importasse muito com eles, mas gostava de saber que outras pessoas o levavam em consideração. Sempre ajudava todo mundo, pelo simples fato de que assim lhe deviam favores. Esse sentimento de credor lhe fazia bem.

Mas com o passar do tempo começou a perceber que essa atitude não estava levando a lugar algum. Os favores que prestava nem sempre voltavam. A maioria das pessoas não reconhecia os atos, alguns poucos eram gratos e mais raro ainda eram os que lhe pagavam favores em troca. Mais do que isso, percebeu que um ou outro ajudava sem esperar nada em troca.

Começou a admirar essas pessoas, e aos poucos passou a focar os esforços para elas. Tratou de ajudar só as que mereciam e já não cobrava nada em troca, sabia que o retorno viria naturalmente. Não precisava mais se preocupar com os outros, com os ingratos. Não os excluía por maldade, mas dizia que era uma forma de educar, de dar exemplo. Vinham lhe pedir ajuda e ele sem qualquer remorso dizia na cara da pessoa que não ajudaria pois ela não merecia.
Estava cada vez mais feliz, não precisava pensar nos outros. Só nos que mereciam, esses ele ajudava sem problema, com a maior das boas intenções. Assim, o número de favores diminuiu e a vida ficou mais fácil. Os dias ganharam mais horas e as noites mais sossego.

Mas por restringir a quantidade de favores prestados, a sua fama começou a mudar. Justo agora que não pensava mais em recompensas, as pessoas estavam lhe tachando de ranzinza, mesquinho e inesperadamente de egoísta!
“Egoísta!?” Justo agora que ajudava por ajudar, que não esperava nada em troca?

Quando percebeu que as pessoas não lhe entendiam resolveu mudar novamente as atitudes e assumir de vez o lado egoísta! Já que estavam lhe tachando de egoísta, agora eles iam ver o que é ser egoísta de verdade!

Passou a ajudar todo mundo, sem exceção. Todo mundo! Mas agora não seria bobo não, ele se organizou. Criou uma escala de 0 a 10 onde classificava todos os favores de acordo com alguns critérios: facilidade, oportunismo, necessidade e etc. Depois, montou uma tabela no Excel onde mantinha um banco de dados de todas as pessoas que tinha ajudado e o grau de favor que elas estavam lhe devendo.
Todo final de dia alimentava o banco de dados com os novos devedores e no final do mês aplicava uma taxa de 0,5% e todos os débitos eram reajustados.
Mas era justo. Sempre que recebia um favor, reconhecia e abatia do débito que a pessoa tinha com ele.

Assim criou uma conta corrente de favores, e mais cedo ou mais tarde todos lhe pagariam com juros e correção “favoretária”.
Quando algum dos devedores morria, não deixava por menos. Ia até o velório, se aproximava da família e expressava os seus sentimentos de perda. Como sempre, se dispunha para ajudar no que fosse preciso e na maioria das vezes até carregava o caixão. Mas ao voltar para casa, acrescentava alguns pontos à conta do defunto (nesse caso o peso do sujeito também era levado em consideração) e depois dividia o débito em iguais partes aos herdeiros do falecido que, muitas vezes, tinha acabado de conhecer.

Voltou a sua melhor forma, egoísta ao extremo, e de quebra ganhou o título de altruísta da cidade.
Naquela noite, vestindo o tradicional terno de risca, camisa cinza e gravata vermelha, voltou para casa com a placa que havia recebido das mãos do presidente da associação municipal dos bons costumes em uma cerimônia no salão nobre da prefeitura. Pendurou a placa em um lugar de destaque na parede oposta à porta de entrada e se presenteou com uma dose de uísque que guardava para ocasiões especiais. Ascendeu um charuto para acompanhar a bebida e sentou-se na poltrona macia e confortável posicionada em frente ao maior espelho da sala, enquanto Duke Ellington brincava com as idas e vindas dos seus dedos. Essa combinação de sensações era perfeita para celebrar o brilho daquela noite, mas entre o sexto gole e a quarta baforada teve um súbito momento de sobriedade, abriu a planilha e abateu um ponto de cada um dos devedores.

3 comentários:

semudei disse...

Grande Segato!
Bom pacarai esse texto. Mas creio q vc devia escrever em inglês. Vai por mim: português anda meio fora de moda.
abrax

Anônimo disse...

No minimo curisoo esse texto, muito bom. O rapaz foi para Londres e ja comecou a escrever bonito. Agora eu comeco a acreditar que voce vem a Dublin para visitar as Igrejas e nao os pubs...rsrs....abraco rapaz! Quando voce vem para os lados de ca?

Chantal disse...

amei!