"Hay toda clase de historias. Algunas nacen al ser contadas, su sustancia es el lenguaje y antes de que alguien las ponga en palabras son apenas una emoción, un capricho de la mente, una imagen o una intangible reminiscencia. Otras vienen completas, como manzanas, y pueden repetirse hasta el infinito sin riesgo e alterar su sentido. Existen unas tomadas de la realidad y procesadas por la inspiración y se convierten en realidad al ser contadas. Y hay historias secretas que permanecen ocultas en las sombras de la memoria, son como organismos vivos, les salen raíces, tentáculos, se llenan de adherencias y parásitos y con el tiempo se transforman en materia de pesadillas. As veces para exorcizar los demonios de un recuerdo es necesario contarlo como un cuento."
Isabel Allende. Cuentos de Eva Luna
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
Vida
Apesar do raciocínio lógico que levava à morte planejada, não se considerava um suicida nato. O suicida verdadeiro era aquele covarde que não tinha coragem de enfrentar os problemas, aquele que sem pensar em outras saídas se matava e pronto. Ele não, ele tinha uma linha de raciocínio que o levava à morte, não era um suicida, apenas faria o que deveria ser feito. Não tinha problema algum, apenas percebeu que havia chegado a hora de morrer. Faria sem remorso, sem ressentimentos, sem culpa.
A vontade de sumir já lhe vinha atormentando a cabeça há muito tempo. Começou com a vontade de fazer uma viagem para um lugar desconhecido, onde ninguém o notaria, onde ninguém o cobraria. Ninguém iria olhá-lo com desdém, com pena ou com qualquer outro sentimento. Estava cansado de ter os olhos das pessoas voltados para ele.
Infelizmente, não passava de um sonho inocente. Primeiro não tinha dinheiro para isso, depois, um dia teria que voltar, se voltasse teria que dar explicações e, mesmo se não voltasse, alguém o acharia graças às tecnologias de espionagem que se tem hoje em dia por aí. Ainda assim, se conseguisse um plano infalível de sumir sem deixar rastros, o efeito seria o de um suicídio seguido de um renascimento em um lugar desconhecido. Neste ponto, o plano fracassava, estava muito velho e cansado para nascer de novo. Foi mais ou menos assim, seguindo essa linha de raciocínio, aqui reduzida ao máximo possível, que ele deixou de lado a idéia de nascer de novo e assumiu como única saída possível o suicídio simples.
Porém, embora o ato fosse nada mais do que prático, não conseguiu impedir os pensamentos de irem buscar na memória uma por uma, as pessoas que se chocariam com o evento. Irritou-se com o fato de se preocupar com os outros, era um ato simples, sairia da vida e pronto, uma escolha, ninguém tinha nada a ver com isso. Mas era impossível não pensar em quem estaria em seu velório chorando e sentindo a sua falta. Após checar um a um se chorariam ou não, a pergunta era se sentiriam culpa ou não pelo trágico fim que ele teria. A resposta era surpreendente, o egocentrismo tomava conta das pessoas até mesmo nesses momentos mais mórbidos. Quase todos queriam ter participação na causa mortis, talvez porque dessa forma se sacia o instinto assassino que todo ser humano traz consigo e é ensinado a reprimir para viver em sociedade.
Até a sua primeira namorada que não o via há anos seria assaltada do mesmo sentimento quando recebesse a notícia pelo facebook, Orkut, twitter ou qualquer outro site de relacionamento que contribuíram para retirar as Marias das janelas e as trouxeram para dentro de casa, voltadas para o outro lado da sala, onde as janelas são inúmeras, mas os raios do sol não entram. Antigamente as notícias teriam que respeitar uma ordem física, para chegar ao destinatário final; elas teriam que aguardar o tempo necessário de viagem de janela a janela, de boca a boca. Hoje, basta que a boca de uma Maria queira soltar a notícia e que outras Marias tenham ouvidos e olhos atentos para que ela se espalhe num instante. A primeira namorada seria uma dessas Marias atentas que, como já foi citado, tomaria as dores do suicídio e se sentiria uma das culpadas pelo incidente. Essa pelo menos tinha o discernimento de não se sentir totalmente culpada, ela queria apenas alguma porcentagem da culpa, mas não toda. Apenas aquela parcela que lhe faria sentir importante, que lhe daria a sensação de ter sido amada até o ultimo instante, de ter influenciado a vida de um homem, mas nunca a parcela definitiva, aquela que com as mãos laçaria o nó na corda e que com os pés chutaria a banqueta. Ela queria apenas a culpa de chorar um choro triste por uma ou duas noites, mas nunca a de carregar para o túmulo uma outra vida, ou uma outra morte. Isso nunca.
Da mesma forma se sentiriam os vizinhos que nunca abaixaram o som nas terças à noite; os porteiros que nos dias chuvosos demoravam a abrir o portão de pirraça; o patrão que havia dado aquele esporro na semana anterior e até mesmo o cachorro da vizinha da frente que certa vez tinha urinado na porta dele; todos dividiriam uma porcentagem pequena da culpa da morte.
É óbvio que nada disso o levaria ao ato de suicídio, que só seria consumado por vontade e desígnios próprios, nenhum outro ser tinha interferência nisso. Nem mesmo os mais próximos como a mãe e o filho. No entanto, foram exatamente estes dois que fizeram o plano ir por água abaixo. Não queria que nenhum dos dois levasse para sempre aquela culpa ingrata pelo ato que cometeria, apesar de ser quase impossível pedir-lhes isso. Não se faz um pedido desses nem para uma mãe nem para um filho, muito menos com uma carta de suicídio. Aliás, um suicida nato talvez nunca pensasse numa carta de despedidas, não se importaria com os outros, se mataria e pronto, sem se incomodar com a opinião de terceiros. Ele, no caso, pensava na mãe e no filho e a carta não seria suficiente.
As mãos trêmulas da mãe pegariam o papel e levariam para próximo dos olhos, mas esses nem se esforçariam para ler, estenderia o bilhete para o policial que talvez teria pela frente uma das missões mais difíceis da sua carreira: ler para uma mãe desconsolada a carta de seu filho suicida. As palavras encontrariam os ouvidos de sua mãe e ela se lembraria da última conversa que teria tido com seu filho, ele parecia tão bem. Que tipo de mãe era ela que não percebera que o próprio filho tinha a companhia da morte em seus pensamentos? Que tipo de mãe não conhecia o próprio filho? “Mãe, não se culpe por nada, por favor. Fiz isso por mim, fiz porque era para ser feito.” Como não se culpar pela morte do filho? Onde havia errado? Falta de amor? Amor de mais? Onde havia errado? Porque ele não lhe dera nenhuma dica para que ela pudesse corrigir? Ou será que ele havia dado e ela não percebera? Enfim, sua mãe não merecia essas perguntas na cabeça, que com o tempo iriam se modificar, se agravar, e consumir cada minuto da sua vida até o momento em que se reencontrariam e ele poderia pedir desculpas pessoalmente. Não, ela não merecia isso. E quanto ao filho, esse não compartilharia agora as dores da avó, por causa da idade, mas, inevitavelmente, elas fariam parte do seu crescimento. Sentiria a falta do pai da mesma forma que ele também sentiu na infância. A diferença, é que nas poucas vezes que sonhava com seu pai ele não vinha lhe visitar com uma corda no pescoço, nem com os punhos pingando sangue. O filho não merecia viver com esses fantasmas.
Dessa forma, a idéia do suicídio enfraqueceu, a da morte não. Pensou talvez em se suicidar com um acidente planejado. Não precisaria esperar a morte vir lhe buscar e não seria tachado como um suicida, já que não o era. Morreria de forma que todos julgariam ter sido vítima de um acidente. Pensou em várias formas de se acidentar, mas não conseguiu criar nenhum plano que fosse perfeito a ponto de salvar a Mãe e o filho dos tormentos futuros. Pensou num acidente de carro, miraria em uma árvore e aceleraria até o choque, mas não tinha carro. Pensou em se embriagar e fingir uma queda da sacada do apartamento, mas não bebia. Pensou em cair no trilho do metrô, mas havia câmeras e seria fácil perceber o suicídio. Nada disso funcionaria, por mais que pensasse não conseguia uma saída viável.
Começou então a esperar a morte e a sonhar com ela todas as noites. Quando criança tinha medo dessa imagem fria, pálida, com uma capa preta e foice na mão; hoje, ele sentia um amor platônico por ela. Ele estava completamente seduzido e apaixonado por ela, mas ela não sentia o mesmo por ele, com desdém, o esquecera e não mandava notícias. Como toda dama da noite, ele percebeu que teria que seduzi-la e não apenas esperar. Ela precisaria de um motivo para ir buscá-lo, ela teria que querer e desejá-lo.
Foi assim que iniciou o jogo da sedução com a morte, pesquisou o que a atraia e começou a mudar seu comportamento para agradá-la. Descobriu que ela tinha uma queda por cirrose ou problema no fígado, passou a beber todos os dias. Ouviu dizer que câncer no pulmão era o que a deixava sem fôlego, passou a fumar cada vez mais. Concluiu que a flecha do cupido teria que acertar o coração, passou a comer indiscriminadamente e diminuiu as atividades físicas. Certa vez leu em uma dessas revistas semanais que ovo fazia mal, comeu ovo a semana inteira. Na semana seguinte, um outro estudo dizia que o ovo poderia fazer bem, parou de comer ovo. Toda noite antes de ir dormir tomava uma vitamina de manga. Não sabia o que poderia causar, mas lembrava de sua avó dizendo que não era bom, e como nenhum estudo que ele conhecesse tinha provado o contrário, era melhor arriscar. Certa vez em uma fila de supermercado ouviu a senhora da frente contar para a outra que o gato dela havia morrido por ter comido ração de peixe, “Acredita? Meu gato era alérgico a peixe”. Na mesma hora ele deixou a fila, foi direto à peixaria e comprou um pouco de cada peixe. Se até gato podia ter alergia a peixe, porque ele não? Por via das dúvidas comprou alguns frutos do mar também.
Passou a viver sem medo, sem medo de morrer. Não evitava lugares, convites, pessoas, não evitava nada, procurava intensamente a morte em tudo o que via pela frente. Ironicamente, ela parecia esnobá-lo cada vez mais e passou a ser conhecido como um homem cheio de vida, seu comportamento atraia cada vez mais amigos e convites. A agenda foi se preenchendo de festas e compromissos sociais. Em uma dessas ocasiões, em uma festa no apartamento de um desses novos amigos, estava debruçado sobre o parapeito da sacada olhando fixamente para o chão a dez andares de distância quando uma garota se aproximou e lhe perguntou se estava procurando algo. A resposta veio instantaneamente “Sempre!” “Quem sabe eu não posso ajudá-lo?” Virou-se para responder que infelizmente ninguém podia, mas ficou sem ar ao vê-la e a frase não saiu.
A garota era de uma beleza clássica incrível. Vinha num vestido preto simples, cabelos negros, longos e soltos sobre o ombro, e a pele clara refletia com intensidade a luz da lua atrás dele. Ela percebeu que a resposta não viria tão cedo e aproveitou para se apresentar “Maria”, ele também se apresentou e a partir de então começaram a se ver quase que diariamente.
Maria, para ele, era apenas Mia. O apelido carinhoso veio devido ao primeiro encontro. Dizia que ela havia lhe roubado o ar naquela noite e nada mais justo que pegá-lo de volta do nome dela. A relação se fortaleceu e após alguns meses passaram a viver juntos e a dividir tudo.
Uma noite, após dividirem prazeres e carinhos, Mia pediu para fazer uma pergunta, ele, apesar de sonolento e não querer começar uma conversa naquele momento, disse que claro, ela poderia perguntar qualquer coisa que quisesse. “Aquele dia em que nos conhecemos, você disse que estava sempre à procura de algo. O que era?”. Ele começou a responder instintivamente, sem pensar, porém antes de terminar a frase sentiu vergonha e percebeu que não era a melhor idéia dividir esses pensamentos com ela. A resposta, então, saiu assim, pela metade “A mor...”. Mia não percebeu a falta das duas letras “E já achou?”. Ele a olhou nos olhos e percebeu que “Sim”, ela era exatamente o que ele procurava e, mesmo sem saber, havia encontrado. Deu um beijo suave nos lábios de Mia, encostou a cabeça no peito dela e adormeceu tranqüilo enquanto ela acariciava seus cabelos. No dia seguinte, não acordou.
A vontade de sumir já lhe vinha atormentando a cabeça há muito tempo. Começou com a vontade de fazer uma viagem para um lugar desconhecido, onde ninguém o notaria, onde ninguém o cobraria. Ninguém iria olhá-lo com desdém, com pena ou com qualquer outro sentimento. Estava cansado de ter os olhos das pessoas voltados para ele.
Infelizmente, não passava de um sonho inocente. Primeiro não tinha dinheiro para isso, depois, um dia teria que voltar, se voltasse teria que dar explicações e, mesmo se não voltasse, alguém o acharia graças às tecnologias de espionagem que se tem hoje em dia por aí. Ainda assim, se conseguisse um plano infalível de sumir sem deixar rastros, o efeito seria o de um suicídio seguido de um renascimento em um lugar desconhecido. Neste ponto, o plano fracassava, estava muito velho e cansado para nascer de novo. Foi mais ou menos assim, seguindo essa linha de raciocínio, aqui reduzida ao máximo possível, que ele deixou de lado a idéia de nascer de novo e assumiu como única saída possível o suicídio simples.
Porém, embora o ato fosse nada mais do que prático, não conseguiu impedir os pensamentos de irem buscar na memória uma por uma, as pessoas que se chocariam com o evento. Irritou-se com o fato de se preocupar com os outros, era um ato simples, sairia da vida e pronto, uma escolha, ninguém tinha nada a ver com isso. Mas era impossível não pensar em quem estaria em seu velório chorando e sentindo a sua falta. Após checar um a um se chorariam ou não, a pergunta era se sentiriam culpa ou não pelo trágico fim que ele teria. A resposta era surpreendente, o egocentrismo tomava conta das pessoas até mesmo nesses momentos mais mórbidos. Quase todos queriam ter participação na causa mortis, talvez porque dessa forma se sacia o instinto assassino que todo ser humano traz consigo e é ensinado a reprimir para viver em sociedade.
Até a sua primeira namorada que não o via há anos seria assaltada do mesmo sentimento quando recebesse a notícia pelo facebook, Orkut, twitter ou qualquer outro site de relacionamento que contribuíram para retirar as Marias das janelas e as trouxeram para dentro de casa, voltadas para o outro lado da sala, onde as janelas são inúmeras, mas os raios do sol não entram. Antigamente as notícias teriam que respeitar uma ordem física, para chegar ao destinatário final; elas teriam que aguardar o tempo necessário de viagem de janela a janela, de boca a boca. Hoje, basta que a boca de uma Maria queira soltar a notícia e que outras Marias tenham ouvidos e olhos atentos para que ela se espalhe num instante. A primeira namorada seria uma dessas Marias atentas que, como já foi citado, tomaria as dores do suicídio e se sentiria uma das culpadas pelo incidente. Essa pelo menos tinha o discernimento de não se sentir totalmente culpada, ela queria apenas alguma porcentagem da culpa, mas não toda. Apenas aquela parcela que lhe faria sentir importante, que lhe daria a sensação de ter sido amada até o ultimo instante, de ter influenciado a vida de um homem, mas nunca a parcela definitiva, aquela que com as mãos laçaria o nó na corda e que com os pés chutaria a banqueta. Ela queria apenas a culpa de chorar um choro triste por uma ou duas noites, mas nunca a de carregar para o túmulo uma outra vida, ou uma outra morte. Isso nunca.
Da mesma forma se sentiriam os vizinhos que nunca abaixaram o som nas terças à noite; os porteiros que nos dias chuvosos demoravam a abrir o portão de pirraça; o patrão que havia dado aquele esporro na semana anterior e até mesmo o cachorro da vizinha da frente que certa vez tinha urinado na porta dele; todos dividiriam uma porcentagem pequena da culpa da morte.
É óbvio que nada disso o levaria ao ato de suicídio, que só seria consumado por vontade e desígnios próprios, nenhum outro ser tinha interferência nisso. Nem mesmo os mais próximos como a mãe e o filho. No entanto, foram exatamente estes dois que fizeram o plano ir por água abaixo. Não queria que nenhum dos dois levasse para sempre aquela culpa ingrata pelo ato que cometeria, apesar de ser quase impossível pedir-lhes isso. Não se faz um pedido desses nem para uma mãe nem para um filho, muito menos com uma carta de suicídio. Aliás, um suicida nato talvez nunca pensasse numa carta de despedidas, não se importaria com os outros, se mataria e pronto, sem se incomodar com a opinião de terceiros. Ele, no caso, pensava na mãe e no filho e a carta não seria suficiente.
As mãos trêmulas da mãe pegariam o papel e levariam para próximo dos olhos, mas esses nem se esforçariam para ler, estenderia o bilhete para o policial que talvez teria pela frente uma das missões mais difíceis da sua carreira: ler para uma mãe desconsolada a carta de seu filho suicida. As palavras encontrariam os ouvidos de sua mãe e ela se lembraria da última conversa que teria tido com seu filho, ele parecia tão bem. Que tipo de mãe era ela que não percebera que o próprio filho tinha a companhia da morte em seus pensamentos? Que tipo de mãe não conhecia o próprio filho? “Mãe, não se culpe por nada, por favor. Fiz isso por mim, fiz porque era para ser feito.” Como não se culpar pela morte do filho? Onde havia errado? Falta de amor? Amor de mais? Onde havia errado? Porque ele não lhe dera nenhuma dica para que ela pudesse corrigir? Ou será que ele havia dado e ela não percebera? Enfim, sua mãe não merecia essas perguntas na cabeça, que com o tempo iriam se modificar, se agravar, e consumir cada minuto da sua vida até o momento em que se reencontrariam e ele poderia pedir desculpas pessoalmente. Não, ela não merecia isso. E quanto ao filho, esse não compartilharia agora as dores da avó, por causa da idade, mas, inevitavelmente, elas fariam parte do seu crescimento. Sentiria a falta do pai da mesma forma que ele também sentiu na infância. A diferença, é que nas poucas vezes que sonhava com seu pai ele não vinha lhe visitar com uma corda no pescoço, nem com os punhos pingando sangue. O filho não merecia viver com esses fantasmas.
Dessa forma, a idéia do suicídio enfraqueceu, a da morte não. Pensou talvez em se suicidar com um acidente planejado. Não precisaria esperar a morte vir lhe buscar e não seria tachado como um suicida, já que não o era. Morreria de forma que todos julgariam ter sido vítima de um acidente. Pensou em várias formas de se acidentar, mas não conseguiu criar nenhum plano que fosse perfeito a ponto de salvar a Mãe e o filho dos tormentos futuros. Pensou num acidente de carro, miraria em uma árvore e aceleraria até o choque, mas não tinha carro. Pensou em se embriagar e fingir uma queda da sacada do apartamento, mas não bebia. Pensou em cair no trilho do metrô, mas havia câmeras e seria fácil perceber o suicídio. Nada disso funcionaria, por mais que pensasse não conseguia uma saída viável.
Começou então a esperar a morte e a sonhar com ela todas as noites. Quando criança tinha medo dessa imagem fria, pálida, com uma capa preta e foice na mão; hoje, ele sentia um amor platônico por ela. Ele estava completamente seduzido e apaixonado por ela, mas ela não sentia o mesmo por ele, com desdém, o esquecera e não mandava notícias. Como toda dama da noite, ele percebeu que teria que seduzi-la e não apenas esperar. Ela precisaria de um motivo para ir buscá-lo, ela teria que querer e desejá-lo.
Foi assim que iniciou o jogo da sedução com a morte, pesquisou o que a atraia e começou a mudar seu comportamento para agradá-la. Descobriu que ela tinha uma queda por cirrose ou problema no fígado, passou a beber todos os dias. Ouviu dizer que câncer no pulmão era o que a deixava sem fôlego, passou a fumar cada vez mais. Concluiu que a flecha do cupido teria que acertar o coração, passou a comer indiscriminadamente e diminuiu as atividades físicas. Certa vez leu em uma dessas revistas semanais que ovo fazia mal, comeu ovo a semana inteira. Na semana seguinte, um outro estudo dizia que o ovo poderia fazer bem, parou de comer ovo. Toda noite antes de ir dormir tomava uma vitamina de manga. Não sabia o que poderia causar, mas lembrava de sua avó dizendo que não era bom, e como nenhum estudo que ele conhecesse tinha provado o contrário, era melhor arriscar. Certa vez em uma fila de supermercado ouviu a senhora da frente contar para a outra que o gato dela havia morrido por ter comido ração de peixe, “Acredita? Meu gato era alérgico a peixe”. Na mesma hora ele deixou a fila, foi direto à peixaria e comprou um pouco de cada peixe. Se até gato podia ter alergia a peixe, porque ele não? Por via das dúvidas comprou alguns frutos do mar também.
Passou a viver sem medo, sem medo de morrer. Não evitava lugares, convites, pessoas, não evitava nada, procurava intensamente a morte em tudo o que via pela frente. Ironicamente, ela parecia esnobá-lo cada vez mais e passou a ser conhecido como um homem cheio de vida, seu comportamento atraia cada vez mais amigos e convites. A agenda foi se preenchendo de festas e compromissos sociais. Em uma dessas ocasiões, em uma festa no apartamento de um desses novos amigos, estava debruçado sobre o parapeito da sacada olhando fixamente para o chão a dez andares de distância quando uma garota se aproximou e lhe perguntou se estava procurando algo. A resposta veio instantaneamente “Sempre!” “Quem sabe eu não posso ajudá-lo?” Virou-se para responder que infelizmente ninguém podia, mas ficou sem ar ao vê-la e a frase não saiu.
A garota era de uma beleza clássica incrível. Vinha num vestido preto simples, cabelos negros, longos e soltos sobre o ombro, e a pele clara refletia com intensidade a luz da lua atrás dele. Ela percebeu que a resposta não viria tão cedo e aproveitou para se apresentar “Maria”, ele também se apresentou e a partir de então começaram a se ver quase que diariamente.
Maria, para ele, era apenas Mia. O apelido carinhoso veio devido ao primeiro encontro. Dizia que ela havia lhe roubado o ar naquela noite e nada mais justo que pegá-lo de volta do nome dela. A relação se fortaleceu e após alguns meses passaram a viver juntos e a dividir tudo.
Uma noite, após dividirem prazeres e carinhos, Mia pediu para fazer uma pergunta, ele, apesar de sonolento e não querer começar uma conversa naquele momento, disse que claro, ela poderia perguntar qualquer coisa que quisesse. “Aquele dia em que nos conhecemos, você disse que estava sempre à procura de algo. O que era?”. Ele começou a responder instintivamente, sem pensar, porém antes de terminar a frase sentiu vergonha e percebeu que não era a melhor idéia dividir esses pensamentos com ela. A resposta, então, saiu assim, pela metade “A mor...”. Mia não percebeu a falta das duas letras “E já achou?”. Ele a olhou nos olhos e percebeu que “Sim”, ela era exatamente o que ele procurava e, mesmo sem saber, havia encontrado. Deu um beijo suave nos lábios de Mia, encostou a cabeça no peito dela e adormeceu tranqüilo enquanto ela acariciava seus cabelos. No dia seguinte, não acordou.
sábado, 14 de novembro de 2009
Gabriela
Um dia desses Gabriela entrou afobada na cozinha, com o ovo virado sabe? Acho que ela nem me viu no canto, sentada na cadeira perto da geladeira. Foi direto pro filtro, encheu um copo de água que tomou num gole só. Eu sempre digo que isso faz mal, que tem que respirar entre um gole e outro, mas parece que nunca me escuta. A mãe dela estava de costas no fogão, mas percebeu na hora que a filha não estava bem. Quem é mãe sabe essas coisas, não sei explicar direito, mas sente. Você sabe como é, né?
Quando a Gabriela estava saindo da cozinha a mãe dela pediu para ela buscar um pacote de farinha na dispensa. Na verdade, a Isadora é bem esperta, ela nem precisaria pedir para a Gabriela, até porque eu estava ali e podia muito bem fazer isso, mas ela pediu só para a filha ficar mais um tempo na cozinha e tentar puxar conversa, saber o que estava aperreando a minha menina.
As duas começaram a conversar e eu no começo fingi que não estava ali. Estava morrendo de vontade de dar minha opinião, de dar meus conselhos. Mas aprendi com o tempo que conversa de mãe e filha não se deve meter a colher. Comecei a escolher feijões, mais para disfarçar do que por necessidade. Hoje em dia os feijões que a gente compra no supermercado quase nem tem sujeira. Antigamente que era um sofrimento, a gente jogava mais pro lixo do que pra panela.
Mas quando a Gabriela chegou a mãe começou a rodear a menina com aquela conversa fiada.“Gabi, minha filha...” Não sei porque chama de Gabi, colocou o nome na menina de Gabriela e agora fica chamando de Gabi. Eu nunca achei isso certo. Mas vá lá né? mãe é mãe, vou falar o que? Eu sei como é, se eu desse um palpite ia sobrar pra mim e o que eu menos quero agora é problema pro meu lado.“...você viu no jornal hoje falando do filme daquele cara que você gosta?” “Não, qual?” Eu bem acho que não tinha filme nem cara nenhum, que a Isadora inventou isso só para puxar conversa com a filha. A gente que é mãe sabe dessas coisas, as vezes você começa com uma história boba, sem pé nem cabeça, e vai levando até pegar o fio da meada. “Aquele que fez aquele filme que ele tinha um bigodinho de cafajeste, mas na verdade era o mocinho do filme. Lembra? Que a gente assistiu aqui em casa, eu você e seu pai?” “Não mãe, não lembro, não sei do que você ta falando.” “que que foi minha filha?, que vozinha é essa?” Não falei, a Isadora não é boba não. Isso eu tenho que admitir, essa aí sabe bem das coisas, se faz de boba, mas de repente dá o bote. “Nada mãe, só um pouco chateada. Só isso, mas passa.”
Ah, a Gabriela sempre foi uma menina alegre, feliz, daquelas que chegam cantando, te abraça, te dá um beijo e até começa a dançar com você, justo na hora que você ta atarefada. Às vezes eu acho que ela faz isso para aperrear mesmo, mas é um doce de menina. Quando ela ta assim tristonha da vontade de pegar no colo. Agora não dá mais que já ta uma moça, mas quando ela era menor, sentava com ela no sofá da sala e ficava horas lá com ela.
Aquele dia ela estava tristonha, qualquer um percebia, parecia que tinha um nó na garganta sabe? Com a conversa da mãe foi se acalmando e ficou ali sentadinha na outra ponta da mesa, tomando o copo de água que tinha enchido de novo, mas agora com golinhos pequenos e olhando pra toalha da mesa como que contando as florzinhas da estampa.
“Mãe, quando a gente fica em duvida de alguma coisa. Como que a gente sabe o que que é melhor?” “É aquele moço de novo Gabi?” “Não mãe. To falando sério. E aquele moço é meu namorado, não fala assim dele não.” “que que foi então, minha filha?”
Eu bem vi que essa conversa ia longe, tinha alguma coisa aperreando a minha menina e eu não podia fazer nada, não ali pelo menos, não naquela hora. Eu estava ali no meu canto escolhendo feijões. E a conversa foi longe mesmo, a Gabriela falava para mãe das vontades que ela tinha e dos medos, do medo de não estar fazendo a coisa certa. Ahh essas meninas de hoje em dia tem tanta coisa na cabeça que acabam se preocupando de mais, até com coisas bobas. A Isadora até que tava se saindo bem, tirando cada um dos medozinhos que atormentava a minha menina, mas mesmo assim ainda dava para ver uma rugazinha na testa dela. Ai ai, se eu pudesse fazer algo, mas nenhuma das duas pediu minha opinião, nem olhavam pra mim. Eu ia fazer o que?
Mas daí a Isadora teve que ir lá dentro atender o telefone e a Gabriela ficou ali quietinha no canto dela. Eu sei bem que não posso me intrometer na conversa das duas, já ouvi poucas e boas por causa disso, então chamei a Gabriela pra sentar do meu lado e ajudar a escolher o feijão do almoço. Ela sentou do meu lado, cabisbaixa pegou uma bacia e começou a puxar os feijões da mesa para a bacia.
“Sabe Gabriela, você entende de muita coisa, você é uma menina muito inteligente, mas precisa aprender escolher feijões. Tem que prestar mais atenção minha filha. Deixa eu te mostrar como faz. Ó, primeiro você senta bem perto da mesa com a bacia no colo. Depois esparrama um punhado de feijão na mesa, assim ó. Bom, agora vem a parte mais interessante, você tem que puxar só os bons para a ponta da mesa e deixar eles caírem na bacia.” “Ai vó, só você mesmo! O que que tem de interessante nisso?” “É, acho que nada mesmo...... Mas quer ver, pensa assim ó: esse monte de feijão em cima da mesa é o futuro.” “Vó! Voce lê o futuro no feijão?? Essa eu nunca ouvi.” “Hahaha, não Gabriela, presta atenção! Esses feijões na mesa são o futuro e essa bacia no seu colo é o seu passado. O futuro está cheio de possibilidades: feijões bonitos, grandes, graúdos, vermelhos, feijões mirrados, feios machucados, pedras, sujeiras, pragas.... aí, de tudo isso, você escolhe só o que você vai querer ter na bacia do seu passado. Dá uma olhada na minha bacia, olha só quantos feijões bonitos eu trouxe, agora é sua vez de fazer isso. Você que escolhe o que ter amanhã na bacia do ontem.” “Mas vó, e o presente?” “Ah, o presente, minha menina, é o tempo que separa a mesa da bacia. É esse instantezinho de queda livre, de frio na barriga, de futuro virando passado. Entendeu?” “Entendi vó, entendi sim” Nessa hora a Isadora voltou pra cozinha perguntando o que era que ela tinha entendido. “A vó só estava me ensinando escolher feijões mãe. Só isso.”
A Isadora deu uma risada achando que eu tinha ficado louca e a Gabriela se levantou, me deu um beijo na testa e foi escolher os feijões dela.
Quando a Gabriela estava saindo da cozinha a mãe dela pediu para ela buscar um pacote de farinha na dispensa. Na verdade, a Isadora é bem esperta, ela nem precisaria pedir para a Gabriela, até porque eu estava ali e podia muito bem fazer isso, mas ela pediu só para a filha ficar mais um tempo na cozinha e tentar puxar conversa, saber o que estava aperreando a minha menina.
As duas começaram a conversar e eu no começo fingi que não estava ali. Estava morrendo de vontade de dar minha opinião, de dar meus conselhos. Mas aprendi com o tempo que conversa de mãe e filha não se deve meter a colher. Comecei a escolher feijões, mais para disfarçar do que por necessidade. Hoje em dia os feijões que a gente compra no supermercado quase nem tem sujeira. Antigamente que era um sofrimento, a gente jogava mais pro lixo do que pra panela.
Mas quando a Gabriela chegou a mãe começou a rodear a menina com aquela conversa fiada.“Gabi, minha filha...” Não sei porque chama de Gabi, colocou o nome na menina de Gabriela e agora fica chamando de Gabi. Eu nunca achei isso certo. Mas vá lá né? mãe é mãe, vou falar o que? Eu sei como é, se eu desse um palpite ia sobrar pra mim e o que eu menos quero agora é problema pro meu lado.“...você viu no jornal hoje falando do filme daquele cara que você gosta?” “Não, qual?” Eu bem acho que não tinha filme nem cara nenhum, que a Isadora inventou isso só para puxar conversa com a filha. A gente que é mãe sabe dessas coisas, as vezes você começa com uma história boba, sem pé nem cabeça, e vai levando até pegar o fio da meada. “Aquele que fez aquele filme que ele tinha um bigodinho de cafajeste, mas na verdade era o mocinho do filme. Lembra? Que a gente assistiu aqui em casa, eu você e seu pai?” “Não mãe, não lembro, não sei do que você ta falando.” “que que foi minha filha?, que vozinha é essa?” Não falei, a Isadora não é boba não. Isso eu tenho que admitir, essa aí sabe bem das coisas, se faz de boba, mas de repente dá o bote. “Nada mãe, só um pouco chateada. Só isso, mas passa.”
Ah, a Gabriela sempre foi uma menina alegre, feliz, daquelas que chegam cantando, te abraça, te dá um beijo e até começa a dançar com você, justo na hora que você ta atarefada. Às vezes eu acho que ela faz isso para aperrear mesmo, mas é um doce de menina. Quando ela ta assim tristonha da vontade de pegar no colo. Agora não dá mais que já ta uma moça, mas quando ela era menor, sentava com ela no sofá da sala e ficava horas lá com ela.
Aquele dia ela estava tristonha, qualquer um percebia, parecia que tinha um nó na garganta sabe? Com a conversa da mãe foi se acalmando e ficou ali sentadinha na outra ponta da mesa, tomando o copo de água que tinha enchido de novo, mas agora com golinhos pequenos e olhando pra toalha da mesa como que contando as florzinhas da estampa.
“Mãe, quando a gente fica em duvida de alguma coisa. Como que a gente sabe o que que é melhor?” “É aquele moço de novo Gabi?” “Não mãe. To falando sério. E aquele moço é meu namorado, não fala assim dele não.” “que que foi então, minha filha?”
Eu bem vi que essa conversa ia longe, tinha alguma coisa aperreando a minha menina e eu não podia fazer nada, não ali pelo menos, não naquela hora. Eu estava ali no meu canto escolhendo feijões. E a conversa foi longe mesmo, a Gabriela falava para mãe das vontades que ela tinha e dos medos, do medo de não estar fazendo a coisa certa. Ahh essas meninas de hoje em dia tem tanta coisa na cabeça que acabam se preocupando de mais, até com coisas bobas. A Isadora até que tava se saindo bem, tirando cada um dos medozinhos que atormentava a minha menina, mas mesmo assim ainda dava para ver uma rugazinha na testa dela. Ai ai, se eu pudesse fazer algo, mas nenhuma das duas pediu minha opinião, nem olhavam pra mim. Eu ia fazer o que?
Mas daí a Isadora teve que ir lá dentro atender o telefone e a Gabriela ficou ali quietinha no canto dela. Eu sei bem que não posso me intrometer na conversa das duas, já ouvi poucas e boas por causa disso, então chamei a Gabriela pra sentar do meu lado e ajudar a escolher o feijão do almoço. Ela sentou do meu lado, cabisbaixa pegou uma bacia e começou a puxar os feijões da mesa para a bacia.
“Sabe Gabriela, você entende de muita coisa, você é uma menina muito inteligente, mas precisa aprender escolher feijões. Tem que prestar mais atenção minha filha. Deixa eu te mostrar como faz. Ó, primeiro você senta bem perto da mesa com a bacia no colo. Depois esparrama um punhado de feijão na mesa, assim ó. Bom, agora vem a parte mais interessante, você tem que puxar só os bons para a ponta da mesa e deixar eles caírem na bacia.” “Ai vó, só você mesmo! O que que tem de interessante nisso?” “É, acho que nada mesmo...... Mas quer ver, pensa assim ó: esse monte de feijão em cima da mesa é o futuro.” “Vó! Voce lê o futuro no feijão?? Essa eu nunca ouvi.” “Hahaha, não Gabriela, presta atenção! Esses feijões na mesa são o futuro e essa bacia no seu colo é o seu passado. O futuro está cheio de possibilidades: feijões bonitos, grandes, graúdos, vermelhos, feijões mirrados, feios machucados, pedras, sujeiras, pragas.... aí, de tudo isso, você escolhe só o que você vai querer ter na bacia do seu passado. Dá uma olhada na minha bacia, olha só quantos feijões bonitos eu trouxe, agora é sua vez de fazer isso. Você que escolhe o que ter amanhã na bacia do ontem.” “Mas vó, e o presente?” “Ah, o presente, minha menina, é o tempo que separa a mesa da bacia. É esse instantezinho de queda livre, de frio na barriga, de futuro virando passado. Entendeu?” “Entendi vó, entendi sim” Nessa hora a Isadora voltou pra cozinha perguntando o que era que ela tinha entendido. “A vó só estava me ensinando escolher feijões mãe. Só isso.”
A Isadora deu uma risada achando que eu tinha ficado louca e a Gabriela se levantou, me deu um beijo na testa e foi escolher os feijões dela.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
lasanha do frio
O céu estava um azul claro quase branco. Quando era criança ela adorava esse céu, que sempre vinha acompanhado de um friozinho gostoso, que trazia junto consigo um cobertor e um sofá. No sofá, ela e a mãe. Para ser mais preciso, a mãe no sofá, ela na mãe e o cobertor nela. Era a lasanha do frio, que de tão boa nem precisava de pipoca, mas ela sempre estava lá. A pipoca por sua vez trazia um filme no vídeo cassete. O vídeo quase sempre era de algum desenho de algum morador da terra do Senhor Disney. Eles colocavam na sala algumas risadas, as risadas faziam ela se mexer. Cada movimento vinha acompanhado de um carinho no cabelo. Cada carinho era respondido com um beijo. Cada beijo levava a um abraço. Cada abraço não levava a nada. Cada abraço era eterno, não acabaria nunca, nem mesmo com o próximo. Eles iam se acumulando e no final da sessão ela contabilizava uma média de 50 abraços sobrepostos. Não precisava de mais nada, fechava os olhos e dormia por um bom tempo, ouvindo tum-tum da mãe enquanto se aconchegava no vai e vem do diafragma.
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Doce de Compota
“Um sorvete que nunca acaba, eterno. Mas de repente lhe cortam a língua fora.” era assim que via a vida, mas quando seus netos a perguntavam respondia de uma forma menos traumatizante: “Um pote de doce gigante, daqueles que nunca acabam e você tem uma colher para pegar o quanto quiser na hora que quiser. O problema é que mais cedo ou mais tarde você vai deixar a colher cair no chão e aí não pode mais pegar.”
Os netos não entendiam direito, mas tudo bem. Um dia eles cresceriam e lembrariam da definição da avó maluca. Eles ainda teriam muito pela frente e um dia entenderiam. Ela já tinha vivido o suficiente para ver diversas relações com o doce e sabia muito bem como funcionava.
Já tinha visto gente que não gostava do doce, gente que se lambuzava, gente que comia aos poucos saboreando cada colherada, gente que mal engolia e já estava com a colher no pote de novo, gente que dançava enquanto comia, gente que comia quieta no seu canto, gente que ficava imaginando do que que seria aquele doce esquisito, gente que sem pensar tentava a todo custo descobrir o que tinha no fundo do pote, gente que experimentava comer o doce pelo cabo da colher, gente que levantava o dedinho para comer, gente que tinha vergonha de comer e quando ninguém estava vendo dava uma boa colherada, gente que não sabia se gostava ou não mas mesmo assim continuava comendo, gente que tentava comer com as mãos, gente que se cansava do gosto e jogava a colher pelo alto, gente que brincava com a colher entre uma colherada e outra (às vezes ela escapava), gente que segurava a colher com as duas mãos para não deixar cair, gente que já sem forças não aguentava o peso dela que escorregava para o chão, gente que não lembrava o que fazia com a colher na mão, gente que tirava a colher dos outros, gente que comia chorando, gente que comia rindo e gente que comia sem perceber.
Ela mesma já tivera varias ralações com a colher. No começo quando lhe deram a colher e colocaram o pote na sua frente não sabia o que fazer. Aos poucos viu as outras pessoas enfiando a colher lá dentro e depois colocando na boca. Fez o mesmo, devagar, com medo. A primeira colherada veio com um gosto estranho, depois tentou de novo e de novo e de novo, até se acostumar. Aprendeu a gostar, aos poucos foi pegando confiança e passou a enfiar a colher no pote sem pensar. O tempo passava e começava a comer mais e mais rápido, queria todo o doce, queria aproveitar tudo o que podia daquele pote. Começou a fazer experimentos, parou de comer a parte de cima e tentava experimentar o que tinha mais pro fundo, experimentou misturar, comeu as bordas, o meio, os lados e o fundo. Chegou até a adicionar açúcar ao doce para ver como ficava. Depois a euforia foi passando, foi se acalmando e passou a comer moderadamente. Conheceu seu marido, dividiram colheres, mas não por muito tempo, mais tarde rapazes encapuzados roubariam a colher dele, e ela passaria a comer sozinha de novo.
Quando vieram os filhos queria dar-lhes de comer com a própria colher, mas não podia. Eles tinham que aprender a usar a própria ferramenta. A cada colherada olhava para cada um deles para ver se eles estavam comendo, se estavam segurando direito e se estavam gostando. A preocupação com a colher era cada vez maior, cuidava da sua e da dos filhos. Tinha medo de derrubar ou que eles derrubassem por qualquer descuido. Estava sempre atenta e dava bronca quando algum deles brincava com a colher ou a segurava de forma despretensiosa, como fazem os jovem por aí.
Com os netos foi um pouco diferente, ainda se preocupava, mas queria mais é que eles aproveitassem, ensinava a encher a colher para lambuzar o rosto e sujar a ponta do nariz. Quando as crianças estavam por perto comia o doce dançando em volta dele, rindo e contando piadas, mas a quando estava sozinha, comia devagar sem muito entusiasmo.
A preocupação com a própria colher foi diminuindo, não tinha medo que ela lhe escapasse, tinha medo de não saber usá-la direito. Entristecia ao ver algumas de suas amigas sofrendo para acertar a boca do pote, outras já sem forças para levantar a colher e algumas que já tinham até se esquecido para o que que ela servia. O doce agora tinha um gosto diferente, um tanto quanto saudosista e no geral ia perdendo o sabor e a cor gradativamente. Na verdade, ele sempre foi o mesmo eram os seus olhos e língua que já não se empolgavam mais.
Um dia olhou para os lados e viu os filhos, genros, noras e netos compartilhando o pote, cada um do seu jeito, cada um com a sua mania. Um já com o botão da calça aberto depois de tanto doce, enquanto o outro comia aos poucos com medo de indigestão. O mais novo não sabia nem segurar a colher direito mas olhava atento para aprender como o irmão fazia. Um dos netos estava mais preocupado em observar como os outros comiam que quase nem comia, a irmã dele comia com graça, preocupada em não se sujar, enquanto a prima se lambuzava toda. Um dos filhos quase deixou a colher cair certa vez e agora segurava com as duas mãos enquanto a mulher se preocupava com a dos filhos que estavam na época de querer experimentar comer com a colher da vizinha.
Deu risada, lembrou de como comeu e como comia, e com uma boa e cheia colherada decidiu que estava satisfeita. Abriu a mão e limpou a boca com o guardanapo enquanto escutava o barulho do metal encontrando o chão.
Os netos não entendiam direito, mas tudo bem. Um dia eles cresceriam e lembrariam da definição da avó maluca. Eles ainda teriam muito pela frente e um dia entenderiam. Ela já tinha vivido o suficiente para ver diversas relações com o doce e sabia muito bem como funcionava.
Já tinha visto gente que não gostava do doce, gente que se lambuzava, gente que comia aos poucos saboreando cada colherada, gente que mal engolia e já estava com a colher no pote de novo, gente que dançava enquanto comia, gente que comia quieta no seu canto, gente que ficava imaginando do que que seria aquele doce esquisito, gente que sem pensar tentava a todo custo descobrir o que tinha no fundo do pote, gente que experimentava comer o doce pelo cabo da colher, gente que levantava o dedinho para comer, gente que tinha vergonha de comer e quando ninguém estava vendo dava uma boa colherada, gente que não sabia se gostava ou não mas mesmo assim continuava comendo, gente que tentava comer com as mãos, gente que se cansava do gosto e jogava a colher pelo alto, gente que brincava com a colher entre uma colherada e outra (às vezes ela escapava), gente que segurava a colher com as duas mãos para não deixar cair, gente que já sem forças não aguentava o peso dela que escorregava para o chão, gente que não lembrava o que fazia com a colher na mão, gente que tirava a colher dos outros, gente que comia chorando, gente que comia rindo e gente que comia sem perceber.
Ela mesma já tivera varias ralações com a colher. No começo quando lhe deram a colher e colocaram o pote na sua frente não sabia o que fazer. Aos poucos viu as outras pessoas enfiando a colher lá dentro e depois colocando na boca. Fez o mesmo, devagar, com medo. A primeira colherada veio com um gosto estranho, depois tentou de novo e de novo e de novo, até se acostumar. Aprendeu a gostar, aos poucos foi pegando confiança e passou a enfiar a colher no pote sem pensar. O tempo passava e começava a comer mais e mais rápido, queria todo o doce, queria aproveitar tudo o que podia daquele pote. Começou a fazer experimentos, parou de comer a parte de cima e tentava experimentar o que tinha mais pro fundo, experimentou misturar, comeu as bordas, o meio, os lados e o fundo. Chegou até a adicionar açúcar ao doce para ver como ficava. Depois a euforia foi passando, foi se acalmando e passou a comer moderadamente. Conheceu seu marido, dividiram colheres, mas não por muito tempo, mais tarde rapazes encapuzados roubariam a colher dele, e ela passaria a comer sozinha de novo.
Quando vieram os filhos queria dar-lhes de comer com a própria colher, mas não podia. Eles tinham que aprender a usar a própria ferramenta. A cada colherada olhava para cada um deles para ver se eles estavam comendo, se estavam segurando direito e se estavam gostando. A preocupação com a colher era cada vez maior, cuidava da sua e da dos filhos. Tinha medo de derrubar ou que eles derrubassem por qualquer descuido. Estava sempre atenta e dava bronca quando algum deles brincava com a colher ou a segurava de forma despretensiosa, como fazem os jovem por aí.
Com os netos foi um pouco diferente, ainda se preocupava, mas queria mais é que eles aproveitassem, ensinava a encher a colher para lambuzar o rosto e sujar a ponta do nariz. Quando as crianças estavam por perto comia o doce dançando em volta dele, rindo e contando piadas, mas a quando estava sozinha, comia devagar sem muito entusiasmo.
A preocupação com a própria colher foi diminuindo, não tinha medo que ela lhe escapasse, tinha medo de não saber usá-la direito. Entristecia ao ver algumas de suas amigas sofrendo para acertar a boca do pote, outras já sem forças para levantar a colher e algumas que já tinham até se esquecido para o que que ela servia. O doce agora tinha um gosto diferente, um tanto quanto saudosista e no geral ia perdendo o sabor e a cor gradativamente. Na verdade, ele sempre foi o mesmo eram os seus olhos e língua que já não se empolgavam mais.
Um dia olhou para os lados e viu os filhos, genros, noras e netos compartilhando o pote, cada um do seu jeito, cada um com a sua mania. Um já com o botão da calça aberto depois de tanto doce, enquanto o outro comia aos poucos com medo de indigestão. O mais novo não sabia nem segurar a colher direito mas olhava atento para aprender como o irmão fazia. Um dos netos estava mais preocupado em observar como os outros comiam que quase nem comia, a irmã dele comia com graça, preocupada em não se sujar, enquanto a prima se lambuzava toda. Um dos filhos quase deixou a colher cair certa vez e agora segurava com as duas mãos enquanto a mulher se preocupava com a dos filhos que estavam na época de querer experimentar comer com a colher da vizinha.
Deu risada, lembrou de como comeu e como comia, e com uma boa e cheia colherada decidiu que estava satisfeita. Abriu a mão e limpou a boca com o guardanapo enquanto escutava o barulho do metal encontrando o chão.
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Um poeta e uma garota
Conheceu o poeta na escola, foi a professora de português que o apresentou. Mas foi em casa, com os discos velhos que o pai guardava debaixo da vitrola, que ficaram íntimos. Era ali na sala, por debaixo da poeira e entre ruídos, que o poeta conversava com ele.
Não entendia tudo o que falava, bem pouco na verdade, mas gostava de ouvir mesmo assim. Na escola a professora mostrou como entendê-lo melhor. Pegou um texto e explicou palavra por palavra, depois releu o texto todo montando o sentido das frases e interpretando tudo. O texto ficou muito mais simples depois disso e o poeta mais próximo.
O poeta era legal, gostava quando falava de garotas. Tinha uma de Ipanema e uma outra flor morena que eram especiais. Elas eram maravilhosas, cheias de encantos e beleza, exatamente como a que sentava ao seu lado na sala de aula. Aliás, o que será que ele pensaria se a conhecesse?
Ela era linda! Ele não conseguia parar de olhar. Tinha uma beleza leve e tranqüila que poucos garotos percebiam. Era inteligente e simpática, tinha uma das melhores notas da classe e sempre o ajudava nos exercícios complicados com um brilho nos olhos. À noite, em casa, sentia saudades de vê-la passar com o sorriso leve que os lábios sempre carregavam. Sorriso que podia ter qualquer propósito, mas para ele, era para ele. Sentia saudades de escutar a voz macia com as frases que nem sempre eram direcionadas aos seus ouvidos, mas que por si só já bastavam. Saudades de vê-la chegando pra aula e de saber que por mais um dia inteiro, estaria ao seu lado. Linda, simpática, inteligente, perfeita!! Ela podia ser quem ela quisesse, ela era perfeita.
O que será que o poeta pensaria dela? Uma noite, resolveu parar o poeta e começou a falar. Queria compartilhar aquela beleza com ele, mas queria também ter idéia do que fazer, de como agir perto dela. Contou tudo o que sentia e pediu conselhos. Quando voltou a falar, o poeta disse que só não tem perdão quem não rasga o coração. Ele não entendeu muito bem, mas fez igual a professora ensinou, tentou entender palavra por palavra e depois a idéia toda. No final, percebeu que o poeta estava lhe falando para contar tudo a garota, abrir o coração e expor os sentimentos.
No dia seguinte, falaria com ela no intervalo. Depois da aula de inglês e antes da aula de matemática. Tudo decidido, tinha até decorado uma declaração. Contaria como o coração batia mais forte quando a via, como era feliz quando por alguma razão seus olhares se cruzavam, como gostava de ouvi-la falar, como gostava do seu cabelo, da boca, dos olhos, do nariz, como ela era perfeita...
Não entendia tudo o que falava, bem pouco na verdade, mas gostava de ouvir mesmo assim. Na escola a professora mostrou como entendê-lo melhor. Pegou um texto e explicou palavra por palavra, depois releu o texto todo montando o sentido das frases e interpretando tudo. O texto ficou muito mais simples depois disso e o poeta mais próximo.
O poeta era legal, gostava quando falava de garotas. Tinha uma de Ipanema e uma outra flor morena que eram especiais. Elas eram maravilhosas, cheias de encantos e beleza, exatamente como a que sentava ao seu lado na sala de aula. Aliás, o que será que ele pensaria se a conhecesse?
Ela era linda! Ele não conseguia parar de olhar. Tinha uma beleza leve e tranqüila que poucos garotos percebiam. Era inteligente e simpática, tinha uma das melhores notas da classe e sempre o ajudava nos exercícios complicados com um brilho nos olhos. À noite, em casa, sentia saudades de vê-la passar com o sorriso leve que os lábios sempre carregavam. Sorriso que podia ter qualquer propósito, mas para ele, era para ele. Sentia saudades de escutar a voz macia com as frases que nem sempre eram direcionadas aos seus ouvidos, mas que por si só já bastavam. Saudades de vê-la chegando pra aula e de saber que por mais um dia inteiro, estaria ao seu lado. Linda, simpática, inteligente, perfeita!! Ela podia ser quem ela quisesse, ela era perfeita.
O que será que o poeta pensaria dela? Uma noite, resolveu parar o poeta e começou a falar. Queria compartilhar aquela beleza com ele, mas queria também ter idéia do que fazer, de como agir perto dela. Contou tudo o que sentia e pediu conselhos. Quando voltou a falar, o poeta disse que só não tem perdão quem não rasga o coração. Ele não entendeu muito bem, mas fez igual a professora ensinou, tentou entender palavra por palavra e depois a idéia toda. No final, percebeu que o poeta estava lhe falando para contar tudo a garota, abrir o coração e expor os sentimentos.
No dia seguinte, falaria com ela no intervalo. Depois da aula de inglês e antes da aula de matemática. Tudo decidido, tinha até decorado uma declaração. Contaria como o coração batia mais forte quando a via, como era feliz quando por alguma razão seus olhares se cruzavam, como gostava de ouvi-la falar, como gostava do seu cabelo, da boca, dos olhos, do nariz, como ela era perfeita...
Bateu o sinal e a correria começou com centenas de crianças descendo para o pátio. Ele não acompanhou os amigos, deu uma desculpa, esperou um pouco e desceu as escadas sozinho, respirando fundo, tomando coragem. Ele sabia exatamente onde ela passava os recreios, todos os dias ela lanchava com as amigas em um banco encostado no muro do fundo do pátio. Não sabia como ela reagiria à declaração, então tinha decidido que a tiraria de perto das amigas para não deixá-la constrangida. Inventaria que precisava tirar uma dúvida sobre a prova de ciências, com certeza ela ajudaria e com certeza as amigas não iriam querer acompanhar aquela conversa chata.
Caminhou em direção ao fundo do pátio, ela estava lá, linda como nunca. Parou a uns 20 metros para respirar, tomar coragem e seguir em frente. Mas o ar que deveria encher os pulmões de confiança trouxe entretanto as lembranças da garota da terceira série, da garota da quarta série e da garota da quinta série. Ele já tinha muitas decepções amorosas para os seus 12 anos. Para que arriscar de novo? Além do mais, na próxima aula teriam exercícios em duplas e provavelmente dividiriam o mesmo livro. Deveria arriscar justo agora?
Ele a amava todos os dias e talvez ela não precisasse saber disso. Talvez ela não precisasse saber que tinha alguém ali ao lado dela a amando e que para ele, ela era perfeita. Ela não tinha defeitos e não precisava saber disso. Ela só precisava ser ela. Ela só precisava não estragar tudo. E pra que arriscar? Para que deixá-la sabendo disso, se ela poderia estragar tudo e sumir? E o medo? E o medo do fracasso? E o medo de ter se apaixonado novamente pela pessoa errada?
Decidiu não contar, deu a ela uma chance de não estragar tudo, de continuar perfeita pra sempre. Sempre lembraria da garota da sua infância. Esse seria o presente que daria ao seu amor, a eterna perfeição. Nunca lhe disse nada, desobedeceu ao poeta e a conservou.
Hoje, 30 anos depois e momentos antes de assinar os documentos da segunda separação, ele lembrou da garota e do poeta. Onde estaria ela agora? Como estaria ela? Como teria sido se não tivesse respirado fundo, se tivesse obedecido ao poeta? Será que ainda a amaria? Será que ainda seria perfeita? Será que estaria com uma caneta na mão agora?
Dois tapas nas costas espantaram os pensamentos “Que foi, se arrependeu?” e ao desenhar seu nome no papel respondeu em tom melancólico “Não, só imaginando como tudo poderia ter sido diferente.”
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Fim de ano
Supostamente deveria escrever aqui sobre a viagem. Mas estou com preguiça.
Resumindo, a viagem foi muito boa, consegui fazer todos os percursos que tinha previsto e ainda deu pra acrescentar Budapeste no meio do caminho com direito a cruzar toda a Eslovenia e Hungria de carro. Nada mal!
Natal em Estocolmo e fim de ano em Budapeste com o maior frio da minha vida, termômetros marcando abaixo de -10.
Abraços!
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